segunda-feira, 30 de março de 2020

Eu não gosto de sociologia! Também detesto jaca, mas nunca comi!


Talvez este título não deixe clara a nossa intenção no presente texto, mas como já dizia a minha mãe, no auge do seu conhecimento baseado no senso comum “para bom entendedor, meia palavra basta” ou ainda “para bom entendedor, pingo é letra”. Pretendemos com este texto evidenciar que tendemos a estranhar, rejeitar e até mesmo detestar aquilo que desconhecemos ou que conhecemos de modo superficial, equivocado, e este, infelizmente é o caso da sociologia no Brasil, ao ingressar no curso de ciências sociais, esta pesquisadora precisou por diversas vezes esclarecer sua própria mãe sobre no que consistia este curso, confundido por ela e por outros com o curso de assistência social.

Compartilho aqui um pouco da minha experiência docente e impressões acerca dos desafios e perspectivas em se lecionar sociologia no Brasil, mas especificamente, na rede estadual do Rio de janeiro. Existem muitos motivos para que esta disciplina tenha sido e ainda seja negligenciada, preterida, vamos desenvolver aqui uma breve linha de raciocínio para que mesmo aqueles que não são cientistas sociais ou sociólogos, consigam acompanhar de forma simples e prática os caminhos trilhados por esta ciência no Brasil.

Primeiro precisamos partir do estabelecimento desta disciplina no país, Florestan Fernandes afirmou que
A sociologia foi recebida no Brasil, como “novidade” intelectual, simultaneamente à sua criação na sociedade europeia. Faz parte do processo da vida literária de povo culturalmente muito dependente manter um intercambio exitado com os centros estrangeiros de produção intelectual. As “novidades” assinaláveis tornam-se rapidamente conhecidas, ainda que não fossem reelaboradas de uma forma autônoma. O destino do saber acumulado, desse modo, se regulava pelos padrões de vida literária que faziam dele, estritamente, uma forma de ilustração e um meio de alcançar notoriedade em círculos letrados (FERNANDES, 1980, p.26)

Muito embora Rui Barbosa tenha se empenhado em implantar a sociologia nos curso secundários, formação de professores e nos cursos superiores, seus pareceres não chegaram a ser aprovados, em 1890, Benjamin Constant instituiu o ensino da sociologia e moral nas escolas do exército e em seguida, empreendeu a reforma que incluiu a sociologia no ensino secundário, constituindo o chamado ginasial, tornando-se obrigatória até o ano de 1897, quando a lei foi modificada. Seu processo de implantação no ensino básico é retomado a partir de 1925, graças a chamada reforma Rocha Vaz a disciplina foi introduzida nas escolas secundárias e três anos depois, em 1928, no curso chamado curso normal ou formação de professores.

Na década de 1930 surgem no país os cursos superiores de ciências sociais, com a reforma Gustavo Capanema a obrigatoriedade da sociologia na chamada escola secundária foi retirada, sendo, deste modo, ministrada apenas nos cursos de formação de professores, até ser totalmente abolida em 1964 com o regime militar. Entre 1942 e 1982, com a lei de diretrizes e bases da educação (LDB) a sociologia permaneceu como disciplina optativa nos currículos escolares.

Apenas com a LDB 9394/1996, a sociologia tornou-se definitivamente disciplina integrante do currículo do ensino médio, mas ainda não obrigatória, e em 2008 finalmente torna-se obrigatória a partir da lei 11.684/2008, e apenas em 2012 a sociologia entra para o PNL Plano nacional do livro didático, agora, infelizmente, voltará ser optativa, apesar de todo reconhecimento teórico e sabermos que esta disciplina instrumentaliza professores e alunos para o exercício da cidadania, talvez por isso mesmo sofra tantos cerceamentos.

Dando continuidade ao nosso raciocínio para que possamos compreender o motivo por tantos alunos e alunas, professores e professoras diminuírem a importância desta disciplina, um outro fato importante deve ser destacado, somente na década de 1980 a profissão de sociólogo é reconhecida no Brasil,   através da lei 6.888, de 10 de dezembro de 1980, deste modo, podemos concluir que não apenas a disciplina era e ainda é amplamente desprezada,  a profissão de sociólogo ainda necessitava de  reconhecimento institucional, mesmo que já existisse há mais de um século, ainda era /é pouco conhecida no Brasil, consequentemente reconhecida a sua importância, e, por conseguinte, o senso comum ao “avaliar” esta disciplina e atribuir “utilidade” não consegue ver sua aplicação no cotidiano, pois nem mesmo a profissão sociólogo recebe a devida valorização e reconhecimento, podemos observar, em diversas empresas e projetos, indivíduos com graduação em comunicação social, administração dentre outras formações realizando o trabalho do sociólogo.


Seguindo nossa ponderação a respeito deste detrimento imposto à ciência sociologia no Brasil,  apresentamos outro fato importante para justificar tamanha negligência, como professora da Rede Estadual de Educação do Rio de janeiro há quase dez anos, posso assegurar que quando indagamos um professor ou professora de sociologia sobre quais as principais dificuldades que encontramos no exercício de nosso nobre ofício, na prática docente, iremos apontar, em primeiro lugar a falta de interesse, entusiasmo dos alunos e alunas por esta disciplina, isto ocorre em parte por culpa da própria escola, em seguida das gestões públicas e dos professores de outras disciplinas.

Justificando a nossa afirmação, em primeiro lugar, os alunos e alunas não atribuem relevância cientifica e importância a disciplina, por isso o desinteresse, a cada aula é uma luta, o desafio de tentar fazer com que compreendam que a sociologia é uma ciência de enorme valor, procuramos fazer com que despertem para o fato de que a sociologia irá lhes acompanhar em todos os âmbitos de suas vidas, mas nem sempre obtemos êxito nesta empreitada.  Em grande parte a escola apresenta as disciplinas de sociologia, artes e até mesmo filosofia, como disciplinas “tapa buraco” complementando carga horária de professores de outras disciplinas para não ficarem com tempos vagos ou sobrarem, o que acarreta um certo “descomprometimento”.

Os professores de sociologia não sentem-se valorizados e estimulados em sua grande maioria, como, por exemplo, os professores de matemática, sempre incentivados recebem apoio e valorização da escola e da administração pública, você já ouviu falar de olimpíada de matemática, certo? Mas mesmo existindo, você já viu empolgação e divulgação das olimpíadas de história? Já ouviu falar em olimpíada de literatura? Ou de Filosofia? Então, exatamente, as disciplinas que viabilizam a interpretação, análise e compreensão de textos, a construção de um pensamento crítico e questionador, a capacitação e instrumentalização retórica, as disciplinas da área de humanas não são apresentadas e comemoradas como a matemática.

Os docentes de sociologia geralmente são ironizados, principalmente quando professores desta disciplina reprovam alunos e alunas,  outros professores falam em suas aulas com tom de desdém sobre a sociologia, jocosos, e enfatizam que as suas disciplinas são mais importantes para a vida do que esta, o que por si só já constitui uma atitude antiética, mas infelizmente é algo que acontece inúmeras vezes, esta professora cansou de sofrer com brincadeiras e ironias na sala dos professores ouvindo coisas do tipo “Ah! Mas você nem precisa se preocupar, fala da novela, lê um texto qualquer, nem se importe, você se aborrece à toa!” ou ainda “Sociologia nem reprova, ou não deveria reprovar, para que isso serve mesmo?!” e para completar ainda somos troçados como “malucos beleza” e supõem-se que seríamos um pouco fora da realidade.

E, para finalizar, as gestões governamentais nunca se importaram muito com esta questão, os secretários de educação importam-se em resolver outros problemas e esquecem deste em especial, entretanto, vale destacar que a secretaria estadual de educação do Rio de janeiro realizou debates , discussões e  criou grupos de trabalho para criação de um currículo mínimo para todas as disciplinas, o que foi de fato muito benéfico ao meu ver para a prática de ensino da sociologia, pois a partir do momento em que se estabelece um conteúdo específico para ser lecionado pode-se garantir que os alunos aprendam de fato “alguma coisa”.

  Um outro problema, a falta de licenciados na disciplina,  o que facilita uma prática corrente na rede estadual do Rio de janeiro, abriu-se um precedente,  qualquer um que tenha cursado durante a graduação 140 horas de sociologia, sendo geral, ou da educação, pode requerer habilitação e lecionar a disciplina, isso ocorre também para as disciplinas de filosofia, geografia e história, o que em parte, acredito poder apontar, enquanto professora da Rede como um dos maiores causadores do desconhecimento, desinteresse e descaso com a sociologia, pois os professores de disciplinas diferentes, não levam a sério a sociologia, recheiam suas aulas com achismos e senso comum, levam recortes de jornais e revistas, falam de “atualidades” e acreditam que já é o bastante, como se fosse possível reduzir uma ciência a uma roda de conversa, a apresentação de opinião.

1.1  Quando a escola é de vidro...

Já me fiz valer em outro momento durante a graduação, para tratar da relação professor-aluno em metodologia do ensino da metáfora do vidro utilizada por Ruth Rocha, compartilho aqui um trecho, o qual me atrevo a comparar com os moldes da educação atual,
Eu ia a escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava.
Se você estava no primeiro ano, ganhava um vidro de um tamanho. Se você fosse do segundo ano, seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo à medida que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros. E para falar a verdade, ninguém cabia direito.
Uns eram gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava, e a gente nem podia respirar direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física. Mas aí a gente já estava desesperado de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.

             Estar dentro dos vidros é ser tolhido, impedido de crescer e desenvolver como se deve, de forma natural, coerente, de construir seus saberes e fazeres de forma sólida, livre e como diria Paulo Freire, mediatizado pelo mundo, como deve ser. Infelizmente, o hábito de ficar dentro dos vidros acaba sendo naturalizado para algumas pessoas, elas crescem moldadas de acordo com os padrões estabelecidos, e, acabam por mais incrível que pareça, se sentindo desconfortáveis livres do vidro, daí, não se atrevem a experimentar,  experienciar o novo, a Jaca, a sociologia.

Aqui iremos mencionar o filósofo Louis Althusser (1985), para quem a escola seria um dos basilares aparelhos ideológicos do Estado, os Aparelhos Ideológicos do Estado para este teórico seriam como instituições a serviço do Estado, de acordo com Althusser, o Estado estaria nas mãos da burguesia, que para manter o Estado em seu poder e se manter como classe dominante, controla e manipula ideologicamente as instituições afim de se reproduzir o status quo, parece familiar?

[...]toda a ideologia representa, na sua deformação necessariamente imaginária, não as relações de produção existentes (e as outras relações que delas derivam), mas antes de mais nada a relação (imaginária) dos indivíduos com as relações de produção e com as relações que delas derivam. Na ideologia, o que é representado não é o sistema das relações reais que governam a existência dos indivíduos, mas a relação imaginária destes indivíduos com as relações reais que vivem. (ALTHUSSER, 1970, p. 82).

Quanto mais moldadas e adaptadas aos vidros impostos às nossas existências, mais dificuldade temos em pensar criticamente, em refletir, analisar, ponderar de forma independente e autônoma, crianças crescendo nos vidros deixam os adultos bastante confortáveis, crescem e reproduzem exatamente aquilo que lhes foi imposto, perpetuam a mesma situação, novamente citando Freire, quando a educação não é libertadora o oprimido deseja tornar-se opressor.

Contudo, outros são diferentes e se arriscam a libertar-se dos vidros, porque são distintos, porque não conseguem se adequar, ou porque questionam, ou ainda porquê atrevem-se a experimentar pensar fora do vidro. A partir da metáfora do vidro, em nossa interpretação, podemos associar a perspectiva de Althusser, ao conceber a escola como mera reprodutora presa e escrava do modo de produção capitalista, e por este motivo seria o aparelho ideológico basal do Estado.

O filósofo compreende que o Estado utiliza a escola como principal instituição ideológica cujo o objetivo é manter uma determinada classe no poder, temos ouvido muito ultimamente um certo discurso que fala bastante de ideologia e doutrinação, na verdade, em nossa concepção, o que ocorre na educação brasileira hoje, não se trata de uma doutrinação ideológica com “viés” marxista ou leninista ou o que for, o que ocorre aqui é a concretização de um projeto colocado em prática há muitas décadas, o qual o saudoso e admirável Darcy Ribeiro nos alertou, a crise na educação, da qual ouvimos falar há muitos anos, não é exatamente uma crise, é justamente um projeto, que concluiu-se agora, ao findar da segunda década do século XXI, uma escola precarizada, depredada e com “vidros” que “formou” uma grande massa de analfabetos funcionais, um grande contingente de indivíduos incapazes de pensar de forma autônomo e crítica, que se informam e orientam de forma superficial e não são capazes de criar questionamentos coerentes ou analisar fatos ou discernir informações.

A sociologia é vítima deste processo, uma vez sabendo que trata-se de uma matéria capaz de motivar o pensamento crítico, a reflexão, incentiva questionamentos, desperta interesse e curiosidade, não interessa as classes dominantes que esta disciplina seja ofertada aos filhos e filhas das classes desfavorecidas que lhes servem. Todas as disciplinas, todas as ciências tratam de conhecimentos válidos e necessários, então, por que algumas disciplinas e “saberes” recebem maior importância e valorização do que outros?  Cabe aqui lembrarmos de Pierre Bourdieu, para este sociólogo francês a escola reproduz valores,

Com efeito, para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, dos métodos e técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades culturais entre as crianças das diferentes classes sociais. Em outras palavras, tratando todos os educandos, por mais desiguais que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura. (BOURDIEU, 1998, p. 53)

Mais uma vez, lembremos dos vidros!  Eles servem para reforçar desigualdades, deixar evidente as diferenças, incomodar, causar constrangimento e fazer com que “alguns” se “ponham” nos seus devidos lugares... A escola está abalizada em valores orientados na classe desde sua organização pedagógica até a forma como idealiza e supostamente prepara o destino dos alunos, e, deste modo, reproduz as normas estabelecidas pelo sistema social.

Estamos há muito tempo presos a um modelo de escola e de ensino limitador, que perpetua preconceitos, que não oferece incentivo a pesquisa e não valoriza os docentes. A sociologia é uma ciência sim! É uma ciência que estuda a sociedade através dos grupos sociais e das instituições, analisando as relações de poder e hierarquia existentes nos comportamentos sociais e os significados que os seus membros lhes atribuem, ou seja, como compreendemos essas dinâmicas e processos.

A sociologia realiza um estudo científico de fato! Um estudo sobre as relações e os fenômenos sociais em seus mais variados significados, produz um conhecimento científico e portanto, reflexivo, sobre a vida em sociedade, buscando compreender seu funcionamento, o comportamento dos grupos sociais.

Mais uma vez citamos o imortal e sempre assertivo Paulo Freire,  quando ele diz que o bom professor é capaz de “trazer” o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento enquanto fala, e, que a sua aula é desafio, acreditamos que lecionar sociologia consista justamente neste exercício a sociologia possuí conceitos, métodos, orientações, como toda ciência, mas não fórmulas decoradas, não se obtém os mesmos resultados em sociologia, não se pode afirmar, por exemplo, que a ordem dos fatores não altera o produto, digamos que estamos realizando uma pesquisa acerta da empregabilidade de mulheres  na cidade do Rio de janeiro, iremos nos fazer valer de métodos, utilizaremos conceitos, e teremos um resultado em cada bairro/ região da cidade, pois cada região possuí suas peculiaridades, especificidades, muito provavelmente o índice de desemprego seria muito maior em bairros da Zona Oeste da cidade onde a precariedade do transporte público é notória e a oferta de empregos significativamente menor que na Zona sul da cidade.

A escola é responsável por “ajuntar” crianças de todas as classes sociais desde a mais tenra idade, frágeis, indefesas e suscetíveis, e lhes impõe os conhecimentos que a classe dominante julga fundamentais para que a “ordem” seja mantida, matemática, física, língua mãe entre outros.

Como podemos ver, o conhecimento é produto da atividade humana, marcado social e culturalmente. O papel do professor consiste em agir como intermediário entre os conteúdos da aprendizagem e a atividade construtiva para assimilação, não cecear a liberdade criativa e de reflexão, muito menos diminuir o valor de uma disciplina em benefício de outra.
Todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a funão de intelectuais [...] formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas sobretudo em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. Uma das características mais marcantes de todo grupo que se desenvolve no sentido do domínio é a luta pela assimilação e pela conquista “ideológica” dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão for capaz de elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos. (GRAMSCI, 2006, p. 18)

No Brasil, infelizmente, uma grande maioria sai do ensino fundamental e vai direto para o subemprego, outra parte segue a formação até o ensino médio e obtém alguma especialização,  tornam-se técnicos, alguns poucos conseguem seguir adiante para o nível superior, e estes são os que irão “mandar’ nestes trabalhadores médios, também são trabalhadores, mas são os capatazes dos donos dos meios de produção, a voz de comando que não está ao lado dos outros trabalhadores, mas sim a favor do patrão e contra si mesmos.
O trabalho do professor em sala de aula, seu relacionamento com os alunos é expresso pela sua relação com o mundo, suas perspectivas, prioridades, e se o professor ou professora cresceram e construíram seu conhecimento nos “vidros”, conformaram-se, irão perpetuar o que aprenderam, se chegarem a cargos burocráticos, coordenações, a trabalhar na administração pública ligada a educação irão perpetuar este pensamento e seguir os modelos estabelecidos pela elite dominante de educação bancária e estanque. 

Estes exercícios de reflexão são realizados nas aulas de sociologia, e, acreditamos que a partir desta prática, os indivíduos tornem-se cada vez mais autônomos e independentes, o que, obviamente, não interessa a um determinado grupo da sociedade, pois “o professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo”. (FREIRE, 1996, p. 31).

2. Desenvolvendo uma perspectiva sociológica

Como docente da disciplina de sociologia da Rede Estadual de educação do Rio de janeiro, esta pesquisadora encontrou inúmeras dificuldades ao iniciar na carreira, a primeira delas foi colocar em prática o plano de aula elaborado com cuidado, carinho e dedicação, a primeira aula ministrada por mim ocorreu no CIEP 495 Alberto da Veiga Guignard, localizado no bairro do Perequê em Angra dos reis RJ, para uma turma do primeiro ano do ensino médio do turno da noite. Havia preparado cartazes organizando uma linha do tempo, uma cronologia do surgimento da sociologia, e mais um pequeno esquema das categorias de análise do chamado “tripé” da sociologia Marx, Weber e Durkheim, também um belo texto introdutório e uma atividade para ser realizada em sala e outra em casa para ser entregue na próxima semana.

Quando a realidade me foi apresentada, tamanha a minha decepção e confusão, fiquei alguns minutos sem saber o que fazer, o referido CIEP era muito bem organizado, iniciando as aulas exatamente no horário proposto pela secretaria Estadual de Educação do Rio de janeiro, assim como encerrando, pontualmente às 22:40, considero ter sido uma privilegiada ao ter iniciado no magistério nesta unidade escolar, mas a minha prática docente era baseada em estágio e cursos que havia ministrado, meu primeiro impacto foi que no horário previsto para o início das aulas da noite 18:30, apenas 3 alunos estavam na minha sala, fiquei atônita, pois tinha apenas 40 minutos de aula, apenas 3 alunos, o que fazer?

Perguntei a uma aluna qual o número de alunos da turma e ela disse que tinham aproximadamente 28, mas que a maioria ainda não sabia que haveria a minha aula, então, chegariam no horário da outra aula, me conformei, e por volta das 19:15 a sala estava com quase a totalidade dos alunos, comecei minha “explanação” e a expressão de tédio era notória, e resolvi colocar meus cartazes no quadro e falar que iríamos utilizá-los na outra semana, a risada foi geral, não entendi muito bem o que acontecia, mas com o tempo acabei compreendendo o motivo dos risos, cartazes coloridos estão relacionados a crianças, a educação infantil, a menos para este público em especial, e minha ideia de realizar uma Brainstorming com a turma para chegarmos a um consenso sobre avaliação, naquele momento foi por água abaixo.

 Percebi que era preciso estabelecer um plano de aula coringa, capaz de servir para qualquer série, qualquer turma e despertar interesse dos alunos e alunas, uma aula que fosse capaz de apresentar a sociologia para variados públicos, de diferentes faixas etárias, territórios, religiões, classes etc., esses pensamentos ocasionaram um insônia terrível e no dia seguinte eu iria enfrentar as turmas do turno da manhã, mas, ao menos, mesmo sem ter preparado o que chamei de “Plano de aula coringa” eu já havia desconstruído e implodido minhas ilusões de aplicabilidade do plano de aula perfeito.

Alguns meses depois eu estava aprimorando este “Plano de aula coringa”, estava aprendendo a lidar com os alunos e alunas, ainda me sentia insegura, mas tentava não deixar que percebessem, com o tempo fui transferida desta querida unidade escolar onde fiz muitos amigos e ainda mantenho contato com alunos e alunas estimados devido a problemas de saúde da minha mãe, e fui privilegiada mais uma vez, sou lotada até hoje, há quase 8 anos no CIEP 433 Togo Renan Soares “Kanela” localizado no bairro Cosmos/ Campo Grande, na cidade do Rio de janeiro, uma unidade escolar maravilhosa, mas completamente diferente do meu cenário anterior, outro contexto, outro território.

O CIEP 433 possuía muito mais turmas que o 495, as turmas são muito mais cheias, os adolescentes muito mais inquietos, irritadiços e abusados, contudo a escola era e é impecável, com ótima direção e coordenação, mas inicialmente tive um problema com uma turma de primeiro ano do ensino médio, a turma 1006, em um certo dia, eu tentava passar uma revisão para a minha avaliação bimestral e simplesmente não conseguia, sentei e chorei, algo que eu não deveria ter feito, mas isso fez com que um colega de trabalho, da disciplina de física se sensibilizasse com a minha situação e  fosse falar com a turma, os controlou e consegui concluir a aula.

Um erro clássico da professora inexperiente, demonstrei fraqueza e falta de domínio de turma, um erro muito comum entre professores em início de carreira e em novos contextos, este colega de trabalho, da disciplina de física,  uma pessoa maravilhosa, muito solícito, não hesitou em sempre me auxiliar e dar uma dezena de conselhos. Um docente de sociologia, do gênero feminino comumente será ironizado, desrespeitado e diminuído pelos alunos e até mesmo colegas de trabalho, aprendi isso das piores formas, mas tive bons amigos e amigas para auxiliar e ensinar e uma boa direção.

Ao passar de quatro anos, aperfeiçoei o chamado “Plano de aula coringa” bem como aprendi como me apresentar, portar e adentrar em uma sala de aula do ensino médio da rede pública Estadual do Rio de janeiro. Meu salvador de todas as horas, meu plano coringa, consiste em desenvolver uma perspectiva sociológica junto com a turma em que irá lecionar no primeiro dia da sua aula, observando o ritmo de cada grupo durante sua aplicação, a partir dele deixo claras quais as minhas intenções e “exigências”, apresento a imaginação sociológica e de quebra, acredito despertar uma certa curiosidade pela disciplina.

2.1 A prática do “Coringa”

A imaginação sociológica, acima de tudo, exige de nós que pensemos fora das “caixinhas”, dos “vidros”,  para que observemos o mundo de forma diferenciada, livre dos juízos de valor e da influência do senso comum, estimular este exercício não é uma tarefa fácil, e nisto consiste o mais essencial do que foi chamado aqui de “plano coringa”, vale destacar que este é um plano emergencial para se adequar  a realidade da educação brasileira, não é descomprometimento, muito menos falta de respeito ou valorização para com a sociologia, muito pelo contrário, buscamos uma alternativa para este cenário educacional precarizado, negligenciado, limitador.

Apresentaremos mais adiante algumas especificações do nosso “Plano coringa”, viabilizando a sua aplicabilidade. Ao colocarmos em prática este plano devemos estar atentos a todo tempo ao público a que direcionamos nossa aula, faixa etária, lugar, território onde a maioria vive, fazer uma pesquisa prévia sobre estas questões, para se ter material para iniciar um exercício de imaginação sociológica com elementos que sejam familiares ao grupo e que consequentemente irão despertar seu interesse e a atenção.

Giddens em seu livro Sociologia, usa o exemplo do café, mas podemos aqui usar uma série de outros exemplos para demonstrar como “funciona” a imaginação sociológica, então, podemos, usar a cerveja como exemplo, geralmente ao fim do expediente de trabalho ou aos finais de semana, homens e mulheres se reúnem para “tomar uma cerveja para relaxar” usando a bebida como subterfúgio, mas neste ato aparentemente simples, inofensivo, corriqueiro, existe uma série de questões, como por exemplo o alcoolismo, a lei seca, o “não saber parar”, a produção desta bebida, o consumo por menores de idade, iniciado geralmente em casa, sua história, a publicidade, questões de gênero etc.

Também podemos utilizar o pão, falando desde a plantação do trigo e a produção dos demais ingredientes necessários para sua fabricação, chegar até a farinha, o padeiro, e todo o processo do famoso e tradicional pão francês. Podemos a partir disso perceber as questões sociais que estão imbuídas no simples ato de “tomar uma cerveja”, “comprar um pão francês” na padaria ao lado de casa ou ainda tomar um chá, exemplo utilizado aqui. Novamente citamos Giddens em Sociologia, o sociólogo afirma que aprender a pensar sociologicamente, de forma mais abrangente, significa cultivar a imaginação, logo, estudar Sociologia não pode ser apenas um processo tedioso de adquirir conhecimento, Giddens nos elucida que um sociólogo deve ser capaz de libertar-se da prisão das questões pessoais imediatistas e ponderar e analisar as coisas a partir de uma perspectiva ampla (Giddens,2005, p.24).

Geralmente ao iniciarmos uma aula com uma nova turma, devemos levar isso em consideração, precisamos nos despir de nossas próprias convicções, medos e preconceitos, juízos de valor e expectativas. Nos apresentamos, falamos de forma breve sobre nossas “exigências” para o convívio, em seguida podemos perguntar se alguém sabe o que é sociologia e do que ela trata, aguardamos as respostas, deixamos que a maioria que desejar responder se coloque, apresentem suas definições, esse é o termômetro para qual exemplo de exercício da imaginação sociológica utilizar e como abordar, justamente por isso é de suam importância, ao construir este plano, desenvolver pelo menos uns quatro exemplos de exercício de imaginação sociológica, com o tempo, podemos até mesmo improvisar.

Se percebermos que a turma não consegue abarcar mesmo que minimamente a aplicação e função da sociologia, devemos ser o mais didáticos e simples possíveis, indo até o aluno, para trazê-lo até onde estamos, ou seja, ir até o seu nível para mostra-lo o caminho para a construção deste conhecimento. Por exemplo, se tratar-se de uma turma de terceiro ou segundo ano, que supostamente já tiveram contato com a disciplina e acredita-se que tenham conhecimento acerca da mesma, podemos nos fazer valer de exemplos mais complexos, até mesmo para poder a partir de uma avaliação prévia com este exercício, seguir-se com a matéria que corresponde ao indicado no currículo mínimo estadual para o bimestre em que se está.

Turmas com alunos e alunas mais velhos e que demonstrem total desconhecimento acerca da disciplina exigem exemplos mais simplificados, como o pão: vocês comem pão francês?  - aguardamos as respostas e damos continuidade: Vocês conseguem imaginar tudo o que existe por trás do simples ato de ir até a padaria, comprar pães para o café da tarde ou da manhã e reclamar do preço? Mais uma vez aguardamos posicionamentos e aí continuamos: Primeiro pensemos numa imensa e linda plantação de trigo, é com o trigo que se faz farinha para o pão, não é? Indagamos de forma retórica. E em seguida perguntamos a turma quais os outros ingredientes necessários para se fazer pão, esperamos que respondam, continuamos até chegarmos no ofício do padeiro, no caixa da padaria e no proprietário da padaria ou do estabelecimento em que se compra o pão. Tudo isso de forma bem leve, sempre possibilitando a participação da turma e fazendo com que sintam-se autônomos realizando este exercício, direcionando apenas as perguntas certas nos momentos certos, não interferindo nas respostas e no final falar que este é um exercício de imaginação sociológica e que a partir do momento em que o realizamos, estamos fazendo e sentindo a sociologia.

Vale destacar, que a breve pesquisa acerca do público antes iniciar com a turma ou na escola nova vai facilitar lidar com o público, vamos imaginar que estamos lecionando numa escola estadual no turno da noite da periferia da cidade de São Paulo, tenso? Bastante, imagina conseguir despertar o interesse e atrair e manter a atenção de pessoas exauridas por jornadas de trabalho intensas e pelo transporte público? Mas, um tema muito interessante seria falar acerca do ofício de office boy ou moto boy muito comum e próximo da realidade de grande parte desses alunos e alunas moradores da periferia desta cidade.

Esta pesquisadora, enquanto professora da Rede Estadual do Rio de janeiro, já se fez valer do exemplo do chá inúmeras vezes em suas aulas, seja em apostilas, ou apenas realizando o exercício de imaginação sociológica. Vamos pensar no que poderíamos dizer, a partir de uma perspectiva sociológica acerca do consumo do chá, deste ritual associado geralmente a britânicos, a pontualidade e a reuniões de mulheres? e até mesmo a espera por algo ou alguém e a questões religiosas, quando dizemos por exemplo, “fulano me deu um chá de cadeira” etc.

Para começar, devemos destacar um fato que por mais incrível que pareça ainda é pouco conhecido, muito embora este “ritual”, esta tradição do consumo de chá esteja associada aos britânicos, na verdade a história do chá remonta à antiguidade no território chinês. Entre muitas lendas que narram o “surgimento” desta bebida, a mais famosa relata que suas raízes provém de mais ou menos 5000 anos atrás, ao governo do Imperador Sheng Nong (Ou Nung, dependendo da fonte), popularmente conhecido como o Curandeiro Divino. Tentando solucionar a constante incidência de surtos epidêmicos em seus domínios, ele criou uma lei que obrigava o povo a ferver a água antes de ingeri-la.

 Diz a lenda que repousando sob a sombra de uma árvore, o soberano deixou sua xícara de água esfriando, e logo percebeu que algumas folhas haviam caído sobre o líquido, conferindo-lhe um tom castanho. Ao experimentar a bebida, descobriu que ela possuía um sabor agradável, disseminando o consumo desta bebida entre os seus súditos; e, deste modo, a China desempenhou um papel crucial na disseminação do consumo do chá pelo mundo.

Viu só? Iniciamos uma linha de pensamento acerca do surgimento do ritual de consumo do chá, e descobrimos que esta bebida não é proveniente da Inglaterra e nem está associada a sofisticação e a pontualidade britânica. Neste momento os alunos provavelmente irão ficar satisfeitos, pois estarão fazendo uma descoberta e rompendo com um pensamento que haviam construído, associando o chá a um país quando na verdade provém de outro.

Seguindo esta linha, podemos mencionar o fato de que tanto na China quanto no Japão, o chá conquistou um desenvolvimento sem igual, em todos os ambientes, até mesmo os artísticos e os religiosos, campo no qual passou a integrar um cerimonial sagrado, aí podemos conquistar outro grupo da turma, que admire o Japão e sua cultura, podemos citar  que o “aventureiro” Marco Polo, ao registrar suas famosas viagens, teria incluído referências ao chá em suas narrativas e assim despertamos o interesse de outro grupo.

E uma infinidade de curiosidades importantes acerca do chá que servem para análise desta questão e partir então para uma perspectiva sociológica direcionada a questões políticas e econômicas, e devemos lembrar do ano de 1773, quando uma certa lei foi criada, e aí indagamos a turma:  estudamos isso na disciplina de história, lembram? A maioria dirá que não, mas aí esclarecemos, isso faz com que eles sejam capazes de associar uma disciplina a outra e perceber a importância de ambas.

Neste momento, na maioria das vezes observamos que os alunos e alunas já estão envolvidos com o tema e conversam entre si sobre ele e deste modo continuamos: Agora que sabemos um pouco mais sobre a história do chá podemos concluir que o chá não é simplesmente uma  bebida que pode ser consumida quente ou gelada, possuí sobretudo, valor simbólico em muitas culturas como a inglesa, a chinesa e principalmente a japonesa, no Japão, o preparo do chá tornou-se uma arte, bem como o seu consumo, se pensarmos bem, em todas as sociedades, em todos os tempos, comer e beber são ações que produzem oportunidades para interação social e para a encenação de rituais, ou seja um ótimo tema para estudos sociológicos.

Devemos destacar, seja qual questão ou produção estivermos analisando a partir da imaginação sociológica, o fato de que um indivíduo está envolvido em uma complicada rede de relações sociais, econômicas e culturais que se estendem pelo mundo desde os tempos antigos, e assim destacamos que o chá é um produto que conecta as pessoas, o rico, o pobre, todos e todas podem consumir chá hoje em dia, inclusive tornou-se mais acessível do que o café, mas nem sempre foi assim. Vale a pena destacar o fato de o chá também ser utilizado para questões relacionadas a saúde e bem estar, quando as pessoas estão enjoadas, quando os bebes precisam dormir, as pessoas indicam chás!

Durante o exercício vamos falando sobre como surge o entusiasmo dos britânicos pelo chá, em que regiões do Brasil se produz chá, quais países do mundo também produzem, podemos falar das senhoras que sabem os chás específicos para dar alívio a dores, e demais problemas de saúde dentre outros assuntos, e, deste modo politizamos o consumo desta bebida, e seguramente contribuímos para um análise sociológica acerca das questões que envolvem a produção do chá; após todas estas informações, mesmo que ainda superficiais iniciamos um processo de análise contextualizando historicamente seu consumo e  produção.

E neste momento, destacamos que para compreender uma série de questões, os sociólogos estão interessados em compreender como a globalização aumenta a consciência das pessoas acerca de assuntos que vêm ocorrendo em locais distantes, como por exemplo na Índia, no Sri Lanka, encorajando-as a produzir novos conhecimentos, a ponderar, e pensar criticamente. Pode-se citar e até mesmo utilizar este trecho de Giddens no texto de apoio, que, em nossa concepção é bastante esclarecedor e explicativo, além de já colocarmos os alunos e alunas em contato com um dos maiores nomes da sociologia contemporânea.

“A imaginação sociológica nos permite ver que muitos eventos que parecem dizer respeito somente ao indivíduo, na verdade refletem questões muito mais amplas. O divórcio, por exemplo pode ser um processo muito difícil para alguém que passa por ele – o que Mills chama de “problema pessoal” – mas o divórcio, assinala Mills, é também um problema público, numa sociedade como a atual Grã-Bretanha, onde mais de um terço de todos os casamentos termina dentro de dez anos. O desemprego, para usar outro exemplo, pode ser uma tragédia pessoal, para alguém despedido de um emprego e inapto para encontrar outro. Mesmo assim, isso vai bem além de uma questão geradora de uma aflição pessoal, se considerarmos que milhões de pessoas numa sociedade estão na mesma situação: é um assunto público expressando amplas tendências sociais.”  (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).

Precisamos envolver os alunos e fazer com que compreendam, como Giddens nos disse, que é trabalho da sociologia investigar as conexões entre o que a sociedade faz de nós e o que fazemos de nós mesmos. As nossas atividades tanto estruturam, modelam, como ao mesmo tempo são estruturadas por esse mundo social. O conceito de estrutura social é muito importante na Sociologia, ele se refere ao fato de que os contextos sociais de nossas vidas não se consistem apenas em conjuntos esporádicos de eventos ou ações, são constituídos ou uniformizados de formas distintas.

A sociologia tem muitas implicações práticas para nossas vidas, primeiramente a Sociologia nos permite ver o mundo social a partir de outros pontos de vista que não o nosso. Se compreendemos precisamente como os outros vivem, também adquirimos melhor entendimento de quais são os seus problemas. Políticas públicas e  práticas que não são baseadas numa consciência bem informada dos modos de vida das pessoas afetadas por elas tem poucas chances de sucesso. Por exemplo, uma assistente social branca, operando numa comunidade predominantemente negra, não ganhará a confiança de seus membros sem desenvolver uma sensibilidade às diferenças na experiência social que separam brancos e negros. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).

“A sociologia pode nos fornecer auto esclarecimento, uma maior auto compreensão. Quanto mais sabemos porque agimos como agimos e como se dá o completo funcionamento de nossa sociedade provavelmente seremos mais capazes de influenciar nossos próprios futuros. Não deveríamos ver a Sociologia como uma ciência que auxilia somente os que fazem políticas, ou seja, grupos poderosos, com o propósito de tomarem decisões informadas. Não se pode supor que os que estão no poder sempre levarão em consideração, em suas políticas os interesses dos menos poderosos ou menos privilegiados. Grupos de auto esclarecimento podem frequentemente se beneficiar da pesquisa sociológica e responder de forma efetiva as políticas governamentais ou formar iniciativas políticas próprias”. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).

Aqui apresentaremos o que chamamos de “Plano Coringa”, tendo em mente que , ensinar sociologia a partir do exercício da imaginação sociológica, corresponde a orientação do aprender a pensar, ou como nos disse FREIRE, para aprendermos a pensar é necessário pesquisar, e não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.

PLANO( Planejamento) DE AULA “Coringa”
ESCOLA:
MUNICÍPIO:
SÉRIE: Todas                                  
PROFESSORA: Bianca Wild
TEMPO DE AULA:  de 45 a 120 minutos                                                        
ASSUNTO: A sociologia – apresentação e construção de uma perspectiva sociológica a partir do exercício de imaginação sociológica.
OBJETIVO GERAL: Apresentar a sociologia aos que a desconhecem, mostrar uma outra face ou vertente aos que já tiveram contato com a disciplina, esclarecer sua aplicabilidade prática e reforçar o seus status de ciência aqueles que estão equivocados com a matéria e promover a reflexão, analise e pensamento crítico.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Levar o alunos a ter a habilidade de efetuar o exercício de imaginação sociológica, a compreensão do conceito de imaginação sociológica, viabilizar aos alunos que consigam alcançar a importância e a utilidade bem como a aplicação da sociologia no dia –a – dia e finalmente desconstruir juízos de valor e definições equivocadas acerca da disciplina.
CONTEÚDOS: Texto de apoio, debate, apresentação da disciplina.
DESENVOLVIMENTO e METODOLOGIA:
Diálogo informal indagando inicialmente se conhecem a sociologia e pedindo que definam a ciência ou no caso de turmas de primeiro ano do ensino médio pedindo que digam o que pensam ou ouviram falar sobre a disciplina. Iniciar após o diálogo de apresentação do professor e da disciplina o exercício de imaginação sociológica de acordo com o texto de apoio utilizado pelo professor.
Cabe destacar que o texto de apoio deve ser construído com base na breve pesquisa e análise do público, da turma, e a partir das informações construir um texto de apoio onde o exercidio de imaginação sociológica que será realizado com os alunos em sala esteja neste texto, bem como nele devem estar bem definidos os conceitos que forem abordados durante o exercício (Imaginação sociológica, estrutura social, grupo social, socialização etc.) neste caso dependerá do professor ou professor que irá construir o seu próprio plano de aula.
Tempo necessário:
Esta é uma questão muito específica dada as circunstâncias da educação nacional , a princípio, de forma bem superficial pode-se aplicar este plano em uma aula apenas de 40/45 minutos, entregando o texto de apoio para leitura em casa ou utilizando outros meios, como por exemplo, compartilhamento via facebook ou e-mail, ou mesmo whatsapp.


Observações:
Cada professor é único e cada turma é especial, e principalmente, cada aluno é um indivíduo único, dotado de capacidades, sentimentos e percepção, o professor precisa estar sempre atento aos seus objetivos, um plano de aula deste tipo pode levar alguns a aplica-lo de forma leviana, mas trata-se , em nossa concepção de uma forma de aproximar o professor e a disciplina dos alunos, principalmente para os novos contextos.

Considerações finais

Quando começamos a estudar Sociologia pela primeira vez, alguns de nós ficam confusos com a diversidade de abordagens que encontramos e muitas vezes questionamos de que nos serviria tais abordagens e conhecimentos. A Sociologia nunca foi uma disciplina em que há um conjunto de ideias que todos aceitam como válidas. Os sociólogos frequentemente discutem entre si sobre como abordar o estudo do comportamento humano e sobre como os resultados das pesquisas podem ser melhor interpretados. Por que deveria ser assim? A reposta está ligada a própria natureza da área. A Sociologia diz respeito às nossas vidas e ao nosso próprio comportamento, e estudar nós mesmos é o mais complexo e árduo trabalho que podemos realizar, afinal somos indivíduos, e como indivíduos possuímos características individuais, peculiares. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005). Os dedos das mãos fazem parte de uma mesma “estrutura” certo? Mas ele são iguais?

Em uma coisa todos os sociólogos concordam, que a Sociologia é uma disciplina na qual deixamos de lado nossa visão pessoal do mundo para olhar mais cuidadosamente para as influências que moldam nossas vidas e as dos outros (as). A Sociologia não é apenas um campo intelectual abstrato, mas tem implicações práticas mais importantes para as vidas das pessoas. Aprender a tornar-se um sociólogo não deveria ser um esforço acadêmico maçante, a melhor forma de se evitar isso é abordar o assunto pesquisado de um modo imaginativo e relacionar ideias e achados sociológicos a situações de nossas vidas. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).

Uma forma de fazer isso é estar consciente das diferenças entre os modos de vida, que nós, nas sociedades modernas, tomamos por normais e aqueles de outros grupos humanos. Ainda que os seres humanos tenham muito em comum, há muitas variações entre diferentes sociedades e culturas. A prática da sociologia envolve a habilidade de pensar imaginativamente e afastar-se de ideias preconcebidas sobre a vida social. A Sociologia nos fornece os meios de aumentar nossas sensibilidades culturais, permitindo que as políticas se baseiem em uma consciência de valores culturais divergentes. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).

Para compreendermos a sociologia temos de estar conscientes de nós próprios como seres humanos entre outros seres humanos. Ao procurarmos ampliar a nossa compreensão dos processos humanos e sociais e adquirir uma base crescente de conhecimentos mais sólidos acerca desses processos, isto já constitui uma das tarefas fundamentais da Sociologia. Também neste âmbito as pessoas verificam que estão sujeitas a forças que as coagem.

Todo a experiência no magistério desta pesquisadora foi e é baseada em encontrar razões, motivos e incentivos para se estudar sociologia, mesmo que a grande maioria dos alunos e alunas não desejem ser pesquisadores ou mesmo nem almejem seguir para o nível superior, tenho como escopo principal fazer com que compreendam que a sociologia é primordial em suas vidas para que encontrem respostas e criem suas próprias perspectivas, visões de mundo respeitando e levando em consideração as dos outros. Citando Florestan Fernandes,

É preciso que o indivíduo adquira uma instrução completa sobre as condições reais da existência social, a fim de conhecer-se a si mesmo e aos seus adversários. Por isso, a comunicação deve ter em vista o caráter da situação histórico-social e seu estado de constante devenir fornecendo sempre indicações concretas [...] O ensino atualmente desenvolvido tende a desenvolver atitudes contemplativas, acentuando o valor de conhecimentos formais. A transmissão destes conhecimentos oferece, como produto final, um quadro   esquemático; e não uma orientação concreta para a vida (FERNANDES, 1974, p .284)







A imagem na página anterior corresponde a uma postagem na “linha do tempo”, do profile desta pesquisadora/professora na Rede social Facebook.com, feita por uma aluna, achamos oportuno compartilhá-la aqui para ilustrarmos o verdadeiro objetivo de se lecionar, e como podemos ser capazes de transformar a vida de pessoas, sem pressões, sem imposições, apenas ensinando, compartilhando conhecimento, incentivando.

A sociologia é uma ciência que nos direciona a compreender os indivíduos agindo, atuando e transformando grupos e instituições sociais, acreditamos como FREIRE, que “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e prática, ativismo” (FREIRE, 1998, p. 24), para ele ensinar não é apenas transferir conhecimentos de forma bancária e estanque, mas sim viabilizar e criar possibilidades para a construção do conhecimento de maneira endógena.

Realizar o exercício de imaginação sociológica , lecionar sociologia, corresponde a prática de estar sempre aprendendo, com dedicação, compromisso, coerência e principalmente responsabilidade e respeito, pois estamos lidando com vidas, pessoas, cada uma com suas subjetividades, histórias de vida, limitações, necessidades, devemos sempre buscar observar isso, hoje, lecionamos para turmas superlotadas, em ambientes nem sempre climatizados, logicamente adolescentes tendem a externar das formas mais variadas possíveis seus anseios, angustias, aflições e fatalmente isso ocorrerá uma hora ou outra em sala de aula, cabe ao professor ter equilíbrio, saber lidar com os conflitos e procurar analisar as razões prováveis.

Nós necessitamos uns dos outros para nos construirmos como indivíduos, nossas subjetividades e identidade social, os docentes fazem grande diferença neste processo, alguns são responsáveis por reforçar e agravar problemas de autoestima e aprendizado em seus alunos porque não aprenderam a lidar com seus próprios problemas, reproduzem a retórica autoritária da imposição ligada ao respeito, e não conseguem unir disciplina à liberdade, “(...) Ensinar não é transferir a inteligência do objeto ao educando, mas instigá-lo no sentido de que, como sujeito cognoscente, se torne capaz de inteligir e comunicar o inteligido” (FREIRE, 1998, p. 134-5).

Felizmente, esta pesquisadora / professora acredita não ter sido responsável por agravar ou causar problemas a nenhum de seus alunos, e acreditamos estarmos utilizando a sociologia, durante todos esses anos de exercício do magistério, além de ciência, como um instrumento para auto análise e compreensão por parte dos alunos dos fenômenos e problemas sociais em que estão imersos, e desta forma contribuir, como dizemos no início, para exercício pleno da cidadania e o respeito aos direitos humanos.





Na imagem acima podemos ver os comentários referentes a uma postagem de um aluno em seu perfil na rede social Facebook.com, onde este aluno fez um comentário e foi afrontado por uma ex professora, e esta pesquisadora/professora acabou por ser citada por outros alunos e alunas como comparação. O objetivo aqui é demonstrar como ouvir e respeitar o aluno ou aluna é importante para o processo ensino aprendizagem e como este processo é determinante, lecionei para estes alunos entre os anos de 2011 e 2012, e fica de certa forma, evidente que as marcas deixadas por esta pesquisadora/professora nestes alunos, definitivamente não lhes causaram sofrimento.


Aqui um trecho do poema “Escola” de Freire (1996, p.36),
 “A Escola é: o lugar onde se faz amigos, não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, horários, conceitos... Escola é, sobretudo gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima: Coordenador é gente, o professor é gente, o aluno é gente, cada funcionário é gente. E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um se comporte como colega, amigo, irmão. Nada de "ilha cercada de gente por todos os lados". Nada de conviver com pessoas e depois descobrir que não tem amizade a ninguém, nada de ser como tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só. Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem, é conviver, é se amarrar nela. Ora, é lógico... numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz.


Ensinar sociologia é algo fascinante, pois o docente tem o privilégio de pesquisar, estudar e se atualizar constantemente, aprender diariamente com seus alunos e alunas, descobrir novidades, analisar comportamentos e buscar contribuir para orientação dos que a buscam, trabalhamos para mostrar que como a jaca ou como qualquer outro alimento, ou esporte, programa, atividade o que seja, a sociologia vale a pena ser experimentada e ao provar corre-se o risco de apreciar, se degustada da forma correta e saboreada,  vivenciada e sentida como deve ser, seus processos, seus caminhos, perceber as variadas teias de significados e estruturas existentes nas sociedades, é  um caminho sem volta, nunca mais o mundo será visto da mesma forma, e isto é o mais fascinante na sociologia, e saber que a única certeza sobre nós, humanos, sobre nossa natureza , é que ela muda.


Referências
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado: Notas sobre os aparelhos ideológicos do Estado.3 Ed.Rio de janeiro: Graal, 1985.
_________________. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado.Lisboa: Presença, 1970.
BOURDIEU. Pierre. A escola conservadora. In: Bourdieu, P. Escritos de Educação (NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. Orgs). Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 1998.
__________________. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,2003.
_________________. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense.2004.
_________________. Razões práticas: sobre a teoria da ação. 5.ed. Campinas, SP: Papirus,2004.
________________. Chamboredon, Jean-Claude; Passeron, Jean-Claude. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

FERNANDES, Florestan. A sociologia no Brasil: contribuições para o estudo de sua formação e desenvolvimento. 2ª ed. Petrópolis:Vozes, 1980.
____________________. Elementos da sociologia teórica. 2 ed. São Paulo: Editora Nacional, 1974.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 7. ed.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
______________. Educação como prática da liberdade. 24ª ed. Rio de janeiro, Paz e Terra. 2000.
_______________. Pedagogia do Oprimido, 43 ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2005.

Giddens, Anthony. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de janeiro: Civilização brasileria, 1968.
_________________.Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais. Caderno 12 (1932) Cadernos do cárcere volume 2, educação de Carlos Nelson Coutinho com colaboração de Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henrique. 4ª ed. Rio de janeiro: Civilização brasileira, 2006.





*Bianca de Moura Wild. Mestre em Humanidades, Culturas e artes, especialista em gênero e sexualidade, graduada em ciências sociais, professora da rede estadual de educação do Rio de janeiro, fundadora e coordenadora geral do Ecomuseu de Sepetiba, tesoureira da ABREMC Associação brasileira de Ecomuseus e museus comunitários.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poder, política e Estado

Clique no link abaixo e acesse o conteúdo referente aos temas e conceitos abordados no segundo bimestre no terceiro ano do ensino médio da ...