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quarta-feira, 22 de abril de 2020
Trabalho, sociedade e capitalismo
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Trabalho, sociedade e capitalismo
Trabalho, sociedade e capitalismo
Cultura, diversidade e identidade
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Cultura, diversidade e identidade
domingo, 19 de abril de 2020
Cultura, Industria Cultural,cultura de massa, contracultura e ideologia.
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Cultura, Industria Cultural,cultura de massa, contracultura e ideologia.
Cultura, Industria Cultural,cultura de massa, contracultura e ideologia.
Senso comum/ conhecimento científico/ grupos/ comunidades/ sociologia
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Senso comum/ conhecimento científico/ grupos/ comunidades/ sociologia
domingo, 5 de abril de 2020
Cultura de massa e indústria cultural – novas tecnologias - Consumo e identidade
“A expressão ‘cultura de massa’, posteriormente
trocada por ‘indústria
cultural’, é aquela criada com um objetivo específico, atingir a massa
popular, maioria no interior de uma população, transpondo, assim, toda e
qualquer diferença de natureza social, étnica, etária, sexual etc.. Todo esse
conteúdo é difundido por meio dos veículos de comunicação de massa.
Os filósofos alemães da Escola de
Frankfurt, Theodor Adorno e Max
Horkheimer, foram os responsáveis pela criação do termo ‘Indústria Cultural’.
Estes pensadores presumiram a forma negativa como a recém-criada mídia seria
utilizada durante a Segunda
Guerra Mundial. Ambos eram de etnia judia, portanto sofreram perseguição
dos nazistas e, para fugir deste contexto, partiram
para os EUA.
Antes do surgimento da cultura de massa, havia
diversas configurações culturais – a popular, em contraposição à erudita; a
nacional, que “atava”, “imaginava”, “tecia” e traçava” a identidade de uma
população; a cultura no sentido geral, definida como um agrupamento histórico
de valores estéticos e morais; e outras tantas culturas que produziam
diversificadas identidades populares.
Mas, a partir da segunda revolução industrial,
no século XIX e do predomínio das regras do mercado capitalista, as artes, a
cultura e a mídia foram submetidas à ideologia da indústria cultural. Com o
nascimento do século XX e, com ele, dos novos meios de comunicação, estas
modalidades culturais ficaram completamente submergidas sob o domínio da
cultura de massa. Veículos como o cinema, o rádio e a televisão, ganharam notório
destaque e se dedicaram, em grande parte, a homogeneizar os padrões da cultura.
Não se pode falar em indústria cultural e sua conseqüência, a cultura de massa,
em um período anterior ao da revolução Industrial, do surgimento de uma
economia de mercado, uma economia baseada no consumo de bens; e da existência
de uma sociedade de consumo, segunda parte do século XIX e início do século XX.
Assim, a indústria cultural, os meios de comunicação de massa e a cultura de
massa surgem com funções do fenômeno da industrialização. E estas, através das
alterações que ocorrem no modo de produção e na forma de trabalho humano, que
determina um tipo particular de indústria (a cultural) e de cultura (a de
massa).
Como esta cultura é, na verdade, produto de
uma atividade econômica estruturada em larga escala, de alcance internacional,
hoje global, ela está vinculada, inevitavelmente, ao poderoso capitalismo
industrial e financeiro. A serviço deste sistema, ela oprime incessantemente as
demais culturas, valorizando tão somente os gostos culturais da massa.Os
produtos de criação da cultura dos homens foram subordinados ao consumo, assim
como os produtos fabricados em série nas grandes fábricas. A chegada da
cultura de massa acaba submetendo as demais expressões “culturais” a um projeto
comum e homogêneo.
De acordo com Oliveira e Costa
(2005), o filósofo alemão Walter Benjamin afirmava que as artes e a cultura
perderam sua autenticidade, seu caráter único, irrepetível, ou a beleza
duradoura, que ele chamou de aura, de expressivas passaram a reprodutivas e
repetitivas.De criação do belo, tornaram-se eventos de consumo, e , por
conseguinte de experimento de novidade, tornaram-se consagração da moda.Ainda
segundo estes autores, a indústria cultural massifica a cultura e as artes para
o consumo rápido no mercado da moda e na mídia.Massificar é banalizar as artes
e a produção de idéias.
Oliveira e Costa (2005) citam a
filósofa Marilena Chauí para ilustrar este fato:
“A indústria cultural vende
cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor.Para seduzi-lo e
agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar.Fazê-lo ter
informações novas que pertubem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o
que ele já sabe, já viu, já fez.”
E desto modo, temos os realyties
shows, os programas que exploram a vida dif´cil de moradores da periferia
dando-lhes a esperança de saltar da favela à zona nobre da cidade rapidamente,
tranformando jovens em “princesas”, os comerciais que tentam nos vender
produtos inúteis e sem qualidade mas com ótima produção do marketing para nos
convencer de que comprá-lo mudará nossas vidas, as revistas de fofocas etc.
Para Oliveira e Costa (2005) a
expressão máxima da indústria cultural são os meios de comunicação, de massa,
ou mídia escrita ou eletrônica, e destacam o poder da mídia enquanto
manipulação, formação de opinião, infantilização e condicionamento das mentes e
produção cultural do grotesco para despolitização.Segundo estes autores, essas
características da mídia se expressam de forma mais acentuada através da TV,
rádio, jornais e revistas, que estão ao alcance de uma parcela maior da
população.
A dominação estabelece-se através da detenção do meio de comunicação e
do aperfeiçoamento da sua tecnologia. Para além da orientação conceitual
daquilo que se designa por massa, outras considerações conceituais podem ser
feitas: ou massa num sentido de opacidade; ou massa num sentido de solidez ou
coesão. Num sentido crítico ou utilitário do poder. com os apelos desta indústria, personificados
principalmente na esfera publicitária, principalmente aquela que se devota sem
pudor ao sensacionalismo, é quase impossível resistir aos sabores visuais da
avalanche de imagens e símbolos que inundam a mente humana o tempo todo. Este é
o motor que move as engrenagens da indústria cultural e aliena as mentalidades
despreparadas.
Ao pensarmos “Identidade” somos remetidos
quase que imediatamente ao RG, nosso registro civil, que possuí um número para
nos identificar e uma série de outras informações que nos tornam
“reconhecíveis” para o “sistema”, aos olhos da lei, para questões burocráticas
etc. Nele constam nossa naturalidade indicando em que estado nascemos,
nacionalidade, indicando nosso país, filiação e data de nascimento; contudo o
termo “Identidade” tem um significado muito mais complexo e abrangente, afinal
não podemos ser resumidos apenas em um
número. Para Jurandir Freire Costa (1989), “(…)a identidade é tudo que se
vivencia (sente, enuncia) como sendo eu, por ocasião àquilo que se percebe ou
anuncia como não-eu (aquilo que é meu; aquilo que é outro) (…) “a identidade
não é uma experiência uniforme, pois é formulada por sistemas de representações
diversos. Cada um destes sistemas corresponde ao modo como o sujeito se atrela
ao universo sócio-cultural. Existe assim, uma identidade social, étnica,
religiosa, de classe; profissional, etc.”
Nós não nascemos já com uma identidade pronta, aliás
segundo o filósofo Henri Bergson construímos o nosso “eu” todos os dias, ou
seja, desde a mais tenra infância vamos nos construindo como indivíduos únicos,
esse processo nunca acaba, iremos construir e reconstruir nossas identidades ao
longo da vida. O indivíduo nunca a constrói sozinho: depende tanto dos
julgamentos dos outros como das suas próprias orientações e autodefinições. A
identidade é um produto de sucessivas socializações. (DUBAR, Claude. A
Socialização Construção das Identidades Sociais. Porto Editora. Lisboa.
Portugal. 1997)
E, justamente
porque dependemos da interação e da constante socialização para nos
construirmos é importante contexto no
qual estamos inseridos, nesse sentido cabe aqui iniciarmos ma discussão acerca
da sociedade em que vivemos, da sociedade do consumo. As identidades acompanham
as sociedades no que concerne a compreensão de que ambas estão em processo
constante de mudança e adequação, se as instituições sociais responsáveis pela
formação dos indivíduos, dentre elas podemos citar a escola, produziram ou
ajudaram a produzir discursos, é importante destacarmos que os sujeitos
concretos não cumprem literalmente aquilo que é prescrito através dos
discursos, fala-se sobre o respeito às “diferenças”, a diversidade e o direito de
todos à cidadania, o que aparenta, de fato, que qualquer um pode apossar-se
desse discurso, que não só é aprazível, humanitário, solidário etc., mas ao
mesmo tempo visivelmente muito fácil de casar com o discurso neoliberal da
atual sociedade, na qual há um mercado para tudo, e, portanto, um espaço “para
todos”. Entretanto pouco se sabe, e pouco se deseja saber, sobre as relações de
poder que estão na base da dialética da exclusão; Nas últimas
décadas houve um aumento significativo do consumo em todo mundo, provocado pelo
crescimento populacional e, principalmente, pela acumulação de capital das
empresas que puderam se expandir e oferecer os mais variados produtos,
conjuntamente com os anúncios publicitários que propõe, induzem e manipulam
para o consumo a todo o momento. Chamamos de consumo o ato da sociedade de
adquirir aquilo que é necessário a sua subsistência e também aquilo que não é
indispensável, ao ato do consumo de produtos supérfluos, denominamos
consumismo.
A
“coisificação” dos indivíduos, a valorização do corpo, da estética, em
detrimento de outros valores e qualidades tão importantes nos seres humanos é
evidente na sociedade em que vivemos, justamente por haver a necessidade
de se “criar” sempre novos consumidores,
há um mercado para crianças, mulheres em várias fases da vida, adolescentes,
gays etc., é preciso estimular o consumo e não deixar ninguém de fora do
círculo.
Para suprir
as sociedades de consumo, o homem interfere profundamente no meio ambiente,
pois tudo que o homem desenvolve vem da natureza, aqui nesse contexto é o palco
das realizações humanas. Através da força de trabalho o homem transforma a
primeira natureza (intacta) em segunda natureza (transformada). É a natureza
que fornece todas matérias primas (solo, água, clima energia minérios etc)
necessárias às indústrias.
O modelo de desenvolvimento capitalista, baseado em inovações tecnológicas, em busca do lucro e no aumento contínuo dos níveis de consumo por a necessidade em se criar novos mercados consumidores constantemente, precisa ser substituído por outro, que leve em consideração os limites suportáveis na natureza e da própria vida.
Os problemas ambientais diferem em relação aos países ricos e pobres, a prova disso é que 20% da população é responsável pela geração da maior parte da poluição e esse percentual é similar ao percentual da população que possui as riquezas do mundo. Enquanto essa população vive em altos níveis de consumo, outra grande maioria, cerca de 2,4 bilhões de pessoas, não possui saneamento, 1 bilhão não tem acesso a água potável, 1,1 bilhão não tem habitação adequada e 1 bilhão de crianças estão subnutridas.
Oliveira e Costa (2005) Citam
Frei Betto:
“A publicidade sabe muito bem
que, quanto mais culta uma pessoa – cultura é tido aquilo que engrandece o
nosso espírito e a nossa consciência – menos consumista ela tende a ser. Um
pesqueno exemplo: quem gosta de música clássica certamente não contribuí para
enriquecer a indústria fonográfica.O que garante fortunas qe rolam nesta
indústria é, a cada dia, o consumidor experimentar uma nova banda, um metaleiro
diferente; porque, se não for assim, se ele gostar de meia dúzia de
compositores classícos, o consumo será menor, pois comprará apenas as novas
interpretações dos compositores da sua preferência.” (Betto, 2004)
Ou seja, como afirmam estes
autores, transformando o alvo, o
indivíduo, neste caso o consumidor, em passivo, dócil, apenas um espectador que
não sente-se como sujeito da história, e muiot menos tem impulsos questionadores
ocorre um processo de inculcação de valores, idéias e hábitos, pois em uma
sociedade de massa, é preciso estar sempre na moda, ser escravo das
tendências.Não se deve pensar, julgar ou avaliar de forma independente o que a
mídia nos oferece, basta consumir e se divertir.
Como
vimos anteriormente, ideologias são conjuntos de idéias que prescrevem
normas, representam a realidade, generalizam o particular, têm um discurso
lacunar, além de inverter a realidade, naturalizar e ocultar os fatos.E,
prescrever normas é elaborar, repetir e manter a ordem dita “normal” das
coisas, e, sendo assim o papel da mídia é justamente esse, prescrever novas e
representar a realidade de forma que nosa seja oferecida uma interpretação
parcial dos fatos, fica claro que quem controla os meios de comunicação faz
parte das estruturas de poder nas sociedades. Nesse sentido, a estrutura não só
da nossa sociedade ,como de outras se reflete na linguagem da mídia de forma
autoritária, elitista, desprezando a cultura popular e voltando-se para a
cosntrução de cidadão meramente consumidores, além de promover a apatia
política e o descompromisso com os reais problemas do povo de acordo com Oliveira e Costa (2005).
Identidades nacionais - étnico-raciais e diferenças culturais
Quando falamos em “identidade” ou
identidades” devemos sempre estar bastante atentos (as),
pois trata-se de um tema que envolve comportamentos, sentimentos, o modo de
ser, de viver e de amar de cada um, e tudo isso é “carregado” de uma história
de vida, ocorrida dentro de um determinado contexto social, com laços
familiares e afetivos específicos, recheada de crenças e valores peculiares.
A identidade
de um indivíduo é única, “identidade designa algo como uma compreensão de quem
somos, nossas características definitórias fundamentais como seres humanos.” TAYLOR, Charles. “A política do
reconhecimento”. In. Argumentos filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000, p.
241.
Aprenderemos aqui um pouco mais sobre essas
características que nos definem, em primeiro lugar vamos falar sobre identidade
nacional. A
caracterização da identidade nacional uni-se, primeiramente à existência da
identidade cultural, bem, já sabemos o que é cultura, mas vale lembrar que a
cultura é nossa herança social, nesse sentido, como brasileiros e brasileiras
que somos, sofremos influências dos portugueses, negros, índios e imigrantes de
vários países como os italianos. Temos uma
identidade cultural forte, baseada em uma língua comum, na miscigenação,
comidas típicas, a arte barroca, a natureza exuberante, nossa música etc.
Para que exista uma identidade nacional é necessário
que o povo possua a consciência de nação, a nação é uma construção
coletiva a partir de uma identidade nacional. Desta forma, é imperioso que,
além da identidade cultural, exista um projeto nacional de desenvolvimento, a
compreensão de identidade nacional também envolve aspectos geográficos, jurídicos ou diplomáticos. Temos exemplos de
países que possuem uma forte identidade cultural, como o Brasil, e outros
detentores de uma elevada consciência de nação, apesar de não ter um grau
elevado de identidade cultural.
Assim, podemos definir identidade nacional como o somatório de valores
culturais resultante da vivência, que, apesar de incluir as diferenças
regionais e peculiaridades grupais, é passível de caracterização por um traço
que permita a definição de um perfil diversificado, contudo hegemônico baseado
em habitante (homem), território, instituições, língua, costumes, religiões e
história comuns.
A identidade brasileira é
proveniente do nascimento da nação, representado pelo idioma, etnias, bem como
através do solo, clima, vegetação e relevo. Nossa base cultural foi constituída
pelo amálgama[1] do
processo de integração de portugueses, negros, índios e imigrantes de vários
países do mundo.
Uma etnia ou um grupo
étnico é uma comunidade humana definida por afinidades linguísticas
e culturais. Estas comunidades geralmente reivindicam para si uma estrutura social, política e
um território.A palavra etnia é usada muitas vezes de forma equivocada
como um sinônimo para grupo minoritário
ou como um eufemismo para raça, embora não
possam ser considerados como iguais.A diferença reside no fato de que etnia
também compreende os fatores culturais, como a nacionalidade,
a afiliação
tribal, a Religião, a língua e as tradições, enquanto raça compreende
apenas os fatores morfológicos, como cor de pele, constituição
física, estatura, traço facial, etc.(Fonte: Wikipédia)
Segundo o antropólogo
norueguês Fredrik Barth (1984), a identidade étnica se expressa pelo ato de um
grupo poder contar "com membros que se identificam a si mesmos e são
identificados pelos outros". Desse modo a construção da identidade étnica
tem na auto-afirmação sua grande base fundadora. Ainda que as análises
culturais sejam essenciais, a etnicidade não pode ser genelarizada por ações da
cultura. Barth acentua que o fato de compartilhar cultura comum pode ser visto
como conseqüência não como fato causa dos grupos étnicos e suas identidades.
“A reação diante da alteridade faz parte da
natureza das sociedades. Em todas as épocas, sociedades reagiram de forma
específica diante do contato com uma cultura diversa à sua, ou seja com pessoas
com costumes, crenças, valores, vestimentas , enfim com o modo de ser, de
viver, de sentir distinto ao seu. Um fenômeno comum, porém, caracteriza todas
as sociedades humanas: o estranhamento, a que chamamos etnocentrismo. Diante de
costumes de outros povos, a avaliação de formas de vida distintas se deu a
partir dos elementos das suas próprias culturas.”(Curso de especialização em
gênero e sexualidade/Organizadores: Carrara,Sérgio…[et al]. – Rio de Janeiro:
CEPESC;Brasília, DF : Secretaria especial de políticas públicas para as
mulheres, 2010.)
“Todas as culturas definem o que as pessoas devem
usar como vestimenta e adorno. Muitas vezes, a nossa, cultura ocidental, se
negou a ver nas pinturas corporais ou em adornos e adereços dos grupos
indígenas sul-americanos os correspondentes às roupas impostas por ela, e
criou a idéia de que o “índio/a” andaria pelado/a, avaliando tal comportamento
como “errado”.[1]”
(Curso de especialização em gênero e sexualidade/Organizadores:
Carrara,Sérgio…[et al]. – Rio de Janeiro: CEPESC;Brasília, DF : Secretaria
especial de políticas públicas para as mulheres, 2010.)
[1]
Nada mais equivocado do que falar do/a “índio/a”
de forma indiscriminada: o etnocentrismo não permite ver, por um lado, que o/a
indígena não existe como algo genérico, mas nas manifestações específicas de
cada cultura – Bororo, Nhambiquara, Guarani, Cinta-Larga, Pataxó etc. E por
outro, que nem anda “pelado/a” nem está mais próximo/a da natureza, pela
simples ausência de vestimentas ocidentais. Os Zoé, índios Tupi do rio
Cuminapanema (PA), por exemplo, utilizam botoques labiais; os homens, estojos
penianos e as mulheres, tiaras e outros adornos, sem os quais jamais
apareceriam em público.
São elementos que os/as diferenciam definitivamente dos
animais e que marcam sua vida em sociedade, da mesma forma que o uso de roupas
na nossa cultura. (Curso de especialização em gênero e
sexualidade/Organizadores: Carrara,Sérgio…[et al]. – Rio de Janeiro:
CEPESC;Brasília, DF : Secretaria especial de políticas públicas para as
mulheres, 2010.)
Grupos sociais e construção de identidades Conceituando o termo “Identidade”
Ao pensarmos
“Identidade” somos remetidos quase que imediatamente ao RG, nosso registro
civil, que possuí um número para nos identificar e uma série de outras
informações que nos tornam “reconhecíveis” para o “sistema”, aos olhos da lei,
para questões burocráticas etc. Nele constam nossa naturalidade indicando em
que estado nascemos, nacionalidade, indicando nosso país, filiação e data de
nascimento; contudo o termo “Identidade” tem um significado muito mais complexo
e abrangente, afinal não podemos ser resumidos apenas em um número. Para Jurandir Freire Costa
(1989), “(…)a identidade é tudo que se vivencia (sente, enuncia) como sendo eu,
por ocasião àquilo que se percebe ou anuncia como não-eu (aquilo que é meu;
aquilo que é outro) (…) “a identidade não é uma experiência uniforme, pois é
formulada por sistemas de representações diversos. Cada um destes sistemas
corresponde ao modo como o sujeito se atrela ao universo sócio-cultural. Existe
assim, uma identidade social, étnica, religiosa, de classe; profissional, etc.”
Nós não nascemos já com uma identidade pronta, aliás
segundo o filósofo Henri Bergson construímos o nosso “eu” todos os dias, ou seja,
desde a mais tenra infância vamos nos construindo como indivíduos únicos, esse
processo nunca acaba, iremos construir e reconstruir nossas identidades ao
longo da vida. O indivíduo nunca a constrói sozinho: depende tanto dos
julgamentos dos outros como das suas próprias orientações e autodefinições. A identidade
é um produto de sucessivas socializações. (DUBAR, Claude. A Socialização Construção
das Identidades Sociais. Porto Editora. Lisboa. Portugal. 1997)
A
“sociedade humana” é formada por pessoas que têm necessidade uma das outras
para continuarem a espécie, buscarem seus objetivos, e sobreviverem. É uma
imensa corrente que permite que o ser humano nasça, cresça e viva. O homem é um animal social, pois
tende a se agrupar através de propósitos, gostos, preocupações e costumes em
comum com outros indivíduos, e assim formamos os chamados grupos sociais que,
para a sociologia, aparecem enquanto um sistema de relações e de interações recorrentes entre pessoas.
Uma tendência natural do ser humano
é a de procurar uma identificação em alguém ou em alguma coisa, ou seja o
sentimento de “pertencimento” ou “identificação”. Quando uma pessoa se
identifica com outra e passa a estabelecer um vínculo social com ela, ocorre
uma associação humana. Com o estabelecimento de muitas associações humanas, o
ser humano passou a organizar os grupos sociais.
Grupo social
é uma forma básica de associação humana que se considera como um todo, com
tradições morais e materiais. Para que exista um grupo social é necessário que
haja uma interação entre seus participantes. Os grupos sociais possuem uma
forma de organização, mesmo que subjetiva, se diferem quanto ao grau de contato
de seus membros, e pode ser definido como uma reunião de pessoas, interagindo
umas com as outras, e por isso capazes de ação conjunta, visando atingir um
objetivo comum compartilham os mesmos interesses, portanto partilham idéias.
Principais
grupos sociais:
·
Grupo familiar – família;
·
Grupo vicinal – vizinhança;
·
Grupo educativo – escola, universidade, curso
etc.;
·
Grupo religioso – igreja;
·
Grupo de lazer – clube,etc;
·
Grupo profissional – empresa, etc;
·
Grupo político – Estado, partidos políticos;
Características
de um grupo social:
Pluralidade de indivíduos – há sempre
mais de um indivíduo no grupo; Interação
social – os indivíduos comunicam-se uns com os outros; Organização – todo grupo, para funcionar bem precisa de uma ordem
interna; Objetividade e exterioridade
– quando uma pessoa entra no grupo ele já existe, quando sai ele permanece
existindo; Objetivo comum – união do
grupo para atingir os mesmos objetivos; Consciência
de grupo ou pertencimento (sentimento de “nós”) – compartilham modos de
agir, pensamentos, idéias, etc. Continuidade
– é necessário ter uma certa duração. Não pode aparecer e desaparecer com
facilidade.
Classificação dos grupos sociais:
·
Grupos primários – predominam os contatos
primários, mais pessoais e diretos, como a família, os vizinhos, etc.
·
Grupos secundários – são mais
complexos, como as igrejas e o estado, em que predominam os contatos
secundários, neste caso, realizam-se de forma pessoal e direta, mas sem
intimidade ou de maneira indireta como emails, telegramas, telefonemas, etc.
Grupos secundários – são mais
complexos, como as igrejas e o estado, em que predominam os contatos
secundários, neste caso, realizam-se de forma pessoal e direta, mas sem
intimidade ou de maneira indireta como emails, telegramas, telefonemas, etc.
·
Grupos intermediários – são aqueles que se
alternam e se complementam as duas formas de contatos sociais (primários e
secundários). Ex: escola.
Outras formas de agrupamentos sociais são:
Agregados sociais: é uma reunião de
pessoas que mantém entre si o mínimo de comunicação e de relações sociais. Podemos
destacar a multidão, o público, e a massa.
Características
da multidão:
·
FALTA DE ORGANIZAÇÃO: não possui um conjunto de
normas.
·
ANONIMATO: não importa quem faz parte da
multidão, a identidade.
·
OBJETIVOS COMUNS: os interesses, as emoções, e
os atos têm o mesmo sentido.
·
INDIFERENCIAÇÃO: todos são iguais perante a
multidão, não há espaço para manifestar as diferenças individuais.
·
PROXIMIDADE FÍSICA: os componentes da multidão
ficam em contato direto e temporário uns dos outros.
Público:
é um agrupamento de indivíduos que seguem os mesmos estímulos. Não se baseia no
contato físico, mas na comunicação recebida através dos diversos meios de
comunicação. Ex: indivíduos assistindo a um jogo – todos que estão juntos
recebem o mesmo estímulo - a reunião é ocasional.
Opinião
pública: modo de pensar, agir, e sentir de um público.
Massa:
é formada por indivíduos que recebem opiniões formadas através dos meios de
comunicação de massa.
Diferença entre público e massa: Público –
recebe a opinião e pode opinar.
Massa – predomina a comunicação transmitida
pelos meios de comunicação de massa.
Toda
a sociedade tem uma série de forças que mantém os grupos sociais. As principais
são a liderança, as normas e sanções sociais, os valores sociais e os símbolos
sociais.
Liderança: é a ação exercida por um
líder, aquele que dirige o grupo. A dois tipos: Liderança institucional - autoridade varia de acordo com a posição
social ou do cargo que o indivíduo ocupa no grupo. Ex: Diretor de uma fabrica. Liderança pessoal – autoridade varia
das qualidades pessoais do líder (inteligência, poder de comunicação, carisma,
atitudes). Ex: Getulio Vargas, Adolf Hitler, etc.
Normas sociais: regras de conduta de
uma sociedade, que controlam e orientam o comportamento das pessoas. Indica o
que é “permitido” e o que é “proibido”.
Sanção
social: é uma recompensa ou uma punição que o grupo determina para os
indivíduos de acordo com o seu comportamento social. É aprovativa quando vem
sob a forma de aceitação, aplausos, honras, promoções. É reprovativa quando vem
sob a forma de punição imposta ao indivíduo que desobedece a alguma norma
social. Ex: insulto, zombaria, prisão, pena de morte.
Valores sociais: variam no espaço e no
tempo, em função de cada época, geração e cada sociedade, ou seja são
temporais, podemos dizer que valores sociais podem ser análogos a moral, por
exemplo, cada período da história tem um conjunto de valores sociais que formam
a moral vigente da época. Ex: o que é bonito para os jovens nem sempre é aceito
pelos mais velhos. As roupas, os cabelos, modo de dançar, as idéias, o comportamento,
enfim, entram em choque com os valores sociais já estabelecidos e cultivados
por seus pais, criando uma certa tensão entre jovens e adultos.
Símbolos: algo cujo valor e significado lhe é atribuído
pelas pessoas que o utilizam. Ex: a aliança que simboliza a união de casais.A
linguagem é um conjunto de símbolos. Podemos dizer que todo o comportamento
humano é simbólico e todo o comportamento simbólico é humano, já que a
utilização de símbolos é exclusiva do homem.
Sistema
de status e papéis: A posição ocupada por um indivíduo no grupo social
denomina-se status social.
Status social: implica direitos,
deveres, prestígio, e até privilégios, conforme o valor social conferido a cada
posição. Dependendo de como o indivíduo obtém seu status pode ser classificado
como:
Status atribuído: não é escolhido pelo
indivíduo, e não depende de si próprio. Ex; irmão caçula, filho de operário,
irmã mais velha.
Status adquirido: depende das
qualidades pessoais do indivíduo, de sua capacidade, e habilidade. São status
adquiridos através de anos de luta e competição, supõe a vitória sobre os
rivais. A pessoa demonstra superioridade. Ex: classe alta.
Papel social: são comportamentos que o
grupo social espera de qualquer pessoa que ocupe determinado status social.Corresponde
às tarefas e obrigações atribuídas de acordo com o status do indivíduo.
Estrutura e organização social
Estrutura social: é a totalidade dos
status existentes num determinado grupo social ou numa sociedade.
Organização social: é o conjunto de todas
as ações que são realizadas quando os membros de um grupo desempenham seus
papeis sociais.
Assim,
enquanto a estrutura social da a idéia de algo estático, que simplesmente
existe, a organização social dá a idéia de uma coisa que acontece.A estrutura social
se refere a um grupo de partes – ex: reunião de indivíduos – enquanto a
organização social se refere às relações que se estabelecem entre essas
partes.Quanto mais complexa a sociedade, mais complexa e maior será a sua
estrutura e organização social.Tanto a estrutura quanto a organização social
não permanecem sempre iguais. Elas podem passar, e passam com freqüência, por
um processo de mudança social.
Imaginação sociológica
“A imaginação sociológica nos permite ver que
muitos eventos que parecem dizer respeito somente ao indivíduo, na verdade
refletem questões muito mais amplas. O divórcio, por exemplo pode ser um
processo muito difícil para alguém que passa por ele – o que Mills chama de
“problema pessoal” – mas o divórcio, assinala Mills, é também um problema
público, numa sociedade como a atual Grã-Bretanha, onde mais de um terço de
todos os casamentos termina dentro de dez anos. O desemprego, para usar outro
exemplo, pode ser uma tragédia pessoal, para alguém despedido de um emprego e
inapto para encontrar outro. Mesmo assim, isso vai bem além de uma questão
geradora de uma aflição pessoal, se considerarmos que milhões de pessoas numa
sociedade estão na mesma situação: é um assunto público expressando amplas
tendências sociais.” (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005).
Embora sejamos influenciados pelos contextos
sociais em que nos encontramos, nenhum de nós tem o comportamento simplesmente
modelado por esses contextos, possuímos, criamos, construímos nossa própria
individualidade. É trabalho da sociologia investigar as conexões entre o que a
sociedade faz de nós e o que fazemos de nós mesmos. As nossas atividades tanto
estruturam, modelam, como ao mesmo tempo são estruturadas por esse mundo
social. O conceito de estrutura social é muito importante na Sociologia, ele se
refere ao fato de que os contextos sociais de nossas vidas não se consistem
apenas em conjuntos esporádicos de eventos ou ações, são constituídos ou
uniformizados de formas distintas. Há regularidades nos modos como nos
comportamos e nos relacionamentos que temos uns com os outros. Entretando a
estrutura social não é como uma estrutura física, como um edifício que existe
independentemente das ações humanas. As sociedades humanas estão sempre em
processo de estruturação. Elas são reestruturadas a todo momento pelos próprios
blocos de construção que as compõe, os
seres humanos. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).
A sociologia tem muitas implicações práticas
para nossas vidas, primeiramente a Sociologia nos permite ver o mundo social a
partir de outros pontos de vista que não o nosso. Se compreendemos precisamente como os outros vivem, também
adquirimos melhor entendimento de quais são os seus problemas. Políticas
práticas que não são baseadas numa consciência bem informada dos modos de vida
das pessoas afetadas por elas tem poucas chances de sucesso. Por exemplo, uma
assistente social branca, operando numa comunidade predominantemente negra, não
ganhará a confiança de seus membros sem desenvolver uma sensibilidade às
diferenças na experiência social que separam brancos e negros. (Giddens, A. Sociologia,
Porto Alegre: Artmed,2005).
“A
sociologia pode nos fornecer auto-esclarecimento, uma maior autocompreensão. Quanto
mais sabemos porque agimos como agimos e como se dá o completo funcionamento de
nossa sociedade provavelmente seremos mais capazes de influenciar nossos
próprios futuros. Não deveríamos ver a Sociologia como uma ciência que auxilia
somente os que fazem políticas, ou seja, grupos poderosos, com o propósito de
tomarem decisões informadas. Não se pode supor que os que estão no poder sempre
levarão em consideração, em suas políticas os interesses dos menos poderosos ou
menos privilegiados. Grupos de auto-esclarecimento podem frequentemente se
beneficiar da pesquisa sociológica e responder de forma efetiva as políticas
governamentais ou formar iniciativas políticas próprias”. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005).
Quando
começamos a estudar Sociologia pela primeira vez, alguns e algumas de nós ficam confusos com a
diversidade de abordagens que encontramos e muitas vezes questionamos de que
nos serviria tais abordagens e conhecimentos. A Sociologia nunca foi uma
disciplina em que há um conjunto de idéias que todos aceitam como válidas. Os
sociólogos frequentemente discutem entre si sobre como abordar o estudo do
comportamento humano e sobre como os resultados das pesquisas podem ser melhor
interpretados. Por que deveria ser assim? A reposta está ligada a própria
natureza da área. A Sociologia diz respeito as nossas vidas e ao nosso próprio
comportamento, e estudar nós mesmos é o mais complexo e árduo trabalho que
podemos realizar, afinal somos indíviduos, e como indivíduos possuímos
características individuais, peculiares. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005). Os dedos das mãos fazem parte de uma mesma “estrutura” certo? Mas
ele são iguais?
Em uma coisa todos os sociólogos concordam,
que a Sociologia é uma disicplina na qual deixamos de lado nossa visão
pessoal do mundo para olhar mais
cuidadosamente para as influências que moldam nossas vidas e as dos outros (as)
.A Sociologia não é apenas um campo intelectual abstrato, mas tem implicações
práticas mais importantes para as vidas das pessoas. Aprender a tornar-se um
sociólogo não deveria ser um esforço acadêmico maçante, a melhor forma de se
evitar isso é abordar o assunto pesquisado de um modo imaginativo e relacionar
idéias e achados sociológicos a situações de nossas vidas. (Giddens, A.
Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).
Uma forma de fazer isso é estar consciente
das diferenças entre os modos de vida, que nós, nas sociedades modernas,
tomamos por normais e aqueles de outros grupos humanos. Ainda que os seres
humanos tenham muito em comum, há muitas variações entre diferentes sociedades
e culturas. A prática da sociologia envolve a habilidade de pensar imaginativamente
e afastar-se de idéias preconcebidas sobre a vida social.A Sociologia nos
fornece os meios de aumentar nossas sensibilidades culturais, permitindo que as
políticas se baseiem em uma consciência de valores culturais divergentes. (Giddens,
A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).
Para compreendermos a sociologia temos de
estar conscientes de nós próprios como seres humanos entre outros seres
humanos.Ao procurarmos ampliar a nossa compreensão dos processos humanos e
sociais e adquirir uma base crescente de conhecimentos mais sólidos acerca
desses processos, isto já constitui uma das tarefas fundamentais da Sociologia.
Também neste âmbito as pessoas verificam que estão sujeitas a forças que as
coagem. “Procuram compreendê-las para que
com a ajuda desse conhecimento, possam adquirir um certo controle sobre o
discurso cego dessas forças compulsivas, cujos efeitos são muitas vezes
destruidores e destituídos de qualquer significado. O objetivo é orientar essas
forças de modo a encontrar-lhes siginificados, tornando-as menos destruidoras
de vidas e de recursos. Daqui decorre ser fundamental para o ensino da
Sociologia e para sua prática de investigação, a aquisição de uma compreensão
geral dessas forças e um aumento de conhecimentos seguros das mesmas, através
de campos especializados de investigação.”
Continuando...
Continuando...
“A imaginação sociológica nos permite ver que
muitos eventos que parecem dizer respeito somente ao indivíduo, na verdade
refletem questões muito mais amplas. O divórcio, por exemplo pode ser um
processo muito difícil para alguém que passa por ele – o que Mills chama de
“problema pessoal” – mas o divórcio, assinala Mills, é também um problema
público, numa sociedade como a atual Grã-Bretanha, onde mais de um terço de
todos os casamentos termina dentro de dez anos. O desemprego, para usar outro
exemplo, pode ser uma tragédia pessoal, para alguém despedido de um emprego e
inapto para encontrar outro. Mesmo assim, isso vai bem além de uma questão
geradora de uma aflição pessoal, se considerarmos que milhões de pessoas numa
sociedade estão na mesma situação: é um assunto público expressando amplas
tendências sociais.” (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005).
Embora sejamos influenciados pelos contextos
sociais em que nos encontramos, nenhum de nós tem o comportamento simplesmente
modelado por esses contextos, possuímos, criamos, construímos nossa própria
individualidade. É trabalho da sociologia investigar as conexões entre o que a
sociedade faz de nós e o que fazemos de nós mesmos. As nossas atividades tanto
estruturam, modelam, como ao mesmo tempo são estruturadas por esse mundo
social. O conceito de estrutura social é muito importante na Sociologia, ele se
refere ao fato de que os contextos sociais de nossas vidas não se consistem
apenas em conjuntos esporádicos de eventos ou ações, são constituídos ou
uniformizados de formas distintas. Há regularidades nos modos como nos
comportamos e nos relacionamentos que temos uns com os outros. Entretando a
estrutura social não é como uma estrutura física, como um edifício que existe
independentemente das ações humanas. As sociedades humanas estão sempre em
processo de estruturação. Elas são reestruturadas a todo momento pelos próprios
blocos de construção que as compõe, os
seres humanos. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).
A sociologia tem muitas implicações práticas
para nossas vidas, primeiramente a Sociologia nos permite ver o mundo social a
partir de outros pontos de vista que não o nosso. Se compreendemos precisamente como os outros vivem, também
adquirimos melhor entendimento de quais são os seus problemas. Políticas
práticas que não são baseadas numa consciência bem informada dos modos de vida
das pessoas afetadas por elas tem poucas chances de sucesso. Por exemplo, uma
assistente social branca, operando numa comunidade predominantemente negra, não
ganhará a confiança de seus membros sem desenvolver uma sensibilidade às
diferenças na experiência social que separam brancos e negros. (Giddens, A. Sociologia,
Porto Alegre: Artmed,2005).
“A
sociologia pode nos fornecer auto-esclarecimento, uma maior autocompreensão. Quanto
mais sabemos porque agimos como agimos e como se dá o completo funcionamento de
nossa sociedade provavelmente seremos mais capazes de influenciar nossos
próprios futuros. Não deveríamos ver a Sociologia como uma ciência que auxilia
somente os que fazem políticas, ou seja, grupos poderosos, com o propósito de
tomarem decisões informadas. Não se pode supor que os que estão no poder sempre
levarão em consideração, em suas políticas os interesses dos menos poderosos ou
menos privilegiados. Grupos de auto-esclarecimento podem frequentemente se
beneficiar da pesquisa sociológica e responder de forma efetiva as políticas
governamentais ou formar iniciativas políticas próprias”. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005).
Quando
começamos a estudar Sociologia pela primeira vez, alguns e algumas de nós ficam confusos com a
diversidade de abordagens que encontramos e muitas vezes questionamos de que
nos serviria tais abordagens e conhecimentos. A Sociologia nunca foi uma
disciplina em que há um conjunto de idéias que todos aceitam como válidas. Os
sociólogos frequentemente discutem entre si sobre como abordar o estudo do
comportamento humano e sobre como os resultados das pesquisas podem ser melhor
interpretados. Por que deveria ser assim? A reposta está ligada a própria
natureza da área. A Sociologia diz respeito as nossas vidas e ao nosso próprio
comportamento, e estudar nós mesmos é o mais complexo e árduo trabalho que
podemos realizar, afinal somos indíviduos, e como indivíduos possuímos
características individuais, peculiares. (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005). Os dedos das mãos fazem parte de uma mesma “estrutura” certo? Mas
ele são iguais?
Em uma coisa todos os sociólogos concordam,
que a Sociologia é uma disicplina na qual deixamos de lado nossa visão
pessoal do mundo para olhar mais
cuidadosamente para as influências que moldam nossas vidas e as dos outros (as)
.A Sociologia não é apenas um campo intelectual abstrato, mas tem implicações
práticas mais importantes para as vidas das pessoas. Aprender a tornar-se um
sociólogo não deveria ser um esforço acadêmico maçante, a melhor forma de se
evitar isso é abordar o assunto pesquisado de um modo imaginativo e relacionar
idéias e achados sociológicos a situações de nossas vidas. (Giddens, A.
Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).
Uma forma de fazer isso é estar consciente
das diferenças entre os modos de vida, que nós, nas sociedades modernas,
tomamos por normais e aqueles de outros grupos humanos. Ainda que os seres
humanos tenham muito em comum, há muitas variações entre diferentes sociedades
e culturas. A prática da sociologia envolve a habilidade de pensar imaginativamente
e afastar-se de idéias preconcebidas sobre a vida social.A Sociologia nos
fornece os meios de aumentar nossas sensibilidades culturais, permitindo que as
políticas se baseiem em uma consciência de valores culturais divergentes. (Giddens,
A. Sociologia, Porto Alegre: Artmed,2005).
Para compreendermos a sociologia temos de
estar conscientes de nós próprios como seres humanos entre outros seres
humanos.Ao procurarmos ampliar a nossa compreensão dos processos humanos e
sociais e adquirir uma base crescente de conhecimentos mais sólidos acerca
desses processos, isto já constitui uma das tarefas fundamentais da Sociologia.
Também neste âmbito as pessoas verificam que estão sujeitas a forças que as
coagem. “Procuram compreendê-las para que
com a ajuda desse conhecimento, possam adquirir um certo controle sobre o
discurso cego dessas forças compulsivas, cujos efeitos são muitas vezes
destruidores e destituídos de qualquer significado. O objetivo é orientar essas
forças de modo a encontrar-lhes siginificados, tornando-as menos destruidoras
de vidas e de recursos. Daqui decorre ser fundamental para o ensino da
Sociologia e para sua prática de investigação, a aquisição de uma compreensão
geral dessas forças e um aumento de conhecimentos seguros das mesmas, através
de campos especializados de investigação.”
Desenvolvendo uma perspectiva sociológica
“Aprender
a pensar sociologicamente – olhando – em outras palavras, de forma mais ampla –
significa cultivar a imaginação. Estudar Sociologia não pode ser apenas um
processo rotineiro de adquirir conhecimento. Um sociólogo é alguém que é capaz
de se libertar das imediatidades das circunstâncias pessoais e apresentar as
coisas num contexto mais amplo. O trabalho sociológico daquilo que o autor
norte-americano C. Wright Mills, numa frase famosa chamou de imaginação sociológica. ( Mills, 1970)” (Giddens, A. Sociologia, Porto Alegre:
Artmed,2005).
A imaginação sociológica, acima de tudo,
exige de nós que pensemos fora das rotinas familiares de nossas vidas
cotidianas a fim de que as observemos de modo renovado, livre dos juízos de
valor e da influência do senso comum.Giddens[1]
em seu livro Sociologia, usa o
exemplo do café, mas podemos aqui usar uma série de outros exemplos para
demonstrar como “funciona” a imaginação sociológica. Ao usar o café como
exemplo, Giddens ressalta que o café possuí valor simbólico como parte de
nossas atividades sociais diárias; podemos então usar a cerveja como exemplo,
embora não muito feliz, geralmente ao fim do expediente de trabalho ou aos
finais de semana, homens e mulheres se reunem para “tomar uma cerveja para
relaxar” usando a bebida como subterfúgio, mas neste ato aparentemente simples,
inofensivo, corriqueiro, existe uma série de questões, como por exemplo o
alcoolismo, a lei seca, o “não saber parar”, a produção desta bebida, o consumo
por menores de idade, iniciado geralmente em casa, sua história, a publicidade
etc.
Um outro exemplo é o chá, o que poderíamos
dizer, a partir de uma perspectiva sociológica acerca do consumo desta bebida,
deste ritual associado geralmente a britânicos, a pontualidade e a reuniões de
mulheres (chá de bebê, chá de panela)?
Para começar, muito embora este “ritual”,
esta tradição do consumo de chá esteja associada aos bitânicos, na verdade a
história do chá
remonta à antiguidade no território chinês. Entre muitas lendas que narram o
“surgimento” desta bebida, a mais famosa relata que suas raízes provém de 5000
anos atrás, ao governo do Imperador Sheng Nong ( Ou Nung, dependendo da fonte),
popularmente conhecido
como o Curandeiro Divino. Tentando solucionar a constante incidência de surtos
epidêmicos em seus domínios, ele criou uma lei que obrigava o povo a ferver a
água antes de ingeri-la.Diz a lenda que repousando sob uma árvore, o soberano
deixou sua xícara de água
esfriando, e logo percebeu que algumas folhas haviam caído sobre o líquido,
conferindo-lhe um tom castanho. Ao experimentar a bebida, descobriu que ela
possuía um sabor agradável, disseminando o consumo desta bebida entre os seus
súditos; a China desempenha um papel crucial na disseminação do consumo do chá
pelo mundo.
Viu só?
Iniciamos uma linha de pensamento acerca do surgimento do ritual de consumo do
chá, e descobrimos que esta bebida não é proveniente da Inglaterra e nem está
associada a sofisticação e a pontualidade britânica..
Em
princípios do século IX alguns monges provenientes do Japão levaram consigo
algumas sementes, iniciando assim o cultivo do hábito que se tornaria tradição
neste país. Tanto na China quanto no Japão, o chá conquistou um desenvolvimento
sem igual, em todos os ambientes, até mesmo os artísticos e os religiosos,
campo no qual passou a integrar um cerimonial sagrado.O desembarque do chá na
Europa se deu gradativamente através da Ásia Central e da Rússia, logo após dos
portugueses, que difundiram o uso do chá por toda a Europa, a partir do fim do
século XV. Os navios de Portugal transportavam a mercadoria até os portos de
Lisboa, sendo daí conduzida para a Holanda e a França.
O
aventureiro Marco Pólo, ao registrar suas famosas viagens, teria incluído
referências ao chá em suas narrativas; do século XIX em diante, o hábito de
consumir o chá se disseminou velozmente na Inglaterra, tornando-se tradição. A
partir das terras inglesas esta bebida se propagou rapidamente aos Estados
Unidos, à Austrália e ao Canadá, até se tornar popular em todo o Planeta.
Enquanto isso, no Japão, o preparo do chá tornou-se uma arte, bem como o seu
consumo.
Dando prosseguimento a nossa análise acerca
do chá, agora partimos para uma perspectiva sociológica direcionada a questões
políticas e econômicas, neste sentido devemos lembrar do ano de 1773, quando
uma certa lei foi criada, estudamos isso na disciplina de história, lembram?
Esta
lei aumentou consideravelmente a aquisição de impostos sobre a comercialização
do chá, que era muito consumido nas colônias. Também foi instituída a
exclusividade de sua venda (o monopólio comercial) à Companhia das Índias Orientais. Foi
uma medida inglesa que impediu os colonos de participar do comércio de Chá, que
era bastante lucrativo, o que
favorecia os comerciantes ingleses, dando-lhes o monopólio do mercado desse
produto nas treze colônias[2],
seu nome: Lei do chá. A resposta
americana teve lugar em Boston, no episódio conhecido como Festa do Chá, quando
americanos vestidos como índios saquearam navios ingleses, jogando ao mar sua
carga de chá.
Agora
que sabemos um pouco mais sobre a história do chá podemos concluir que o chá
não é simplesmente uma bebida que pode
ser consumida quente ou gelada, possuí sobretudo, valor simbólico em muitas
culturas como a inglesa, a chinesa e principalmente a japonesa, no Japão, o
preparo do chá tornou-se uma arte, bem como o seu consumo, os participantes da
cerimônia do chá devem sempre esperar em um recinto, até se desconectarem das
preocupações do dia-a-dia. Se pensarmos bem, em todas as sociedades, em todos
os tempos, comer e beber são ações que produzem oportunidades para interação
social e para a encenação de rituais, ou seja um ótimo tema para estudos
sociológicos.
Outro
ponto, um indivíduo que bebe chá está envolvido em uma complicada rede de
relações sociais, econômicas e culturais que se estendem pelo mundo desde os
tempos antigos. O chá é um produto que conecta as pessoas, o rico, o pobre,
todos e todas podem consumir chá hoje em dia, inclusive tornou-se mais
acessível do que o café, mas nem sempre foi assim. O entusiasmo dos britânicos
pelo chá
é algo que ainda hoje se mantém, no entanto, nos primeiros anos de consumo,
esta bebida não estava ao alcance de todos porque tinha um imposto tão alto
que, em 1689 as vendas de chá quase pararam, ocasionando contrabando de chá em
larga escala que, infelizmente, adulterava muitas vezes as folhas de chá,
adicionando-lhes folhas de outras plantas. Este negócio de mercado negro chegou
a tal proporções que, em 1784, o primeiro-ministro William Pitt colocou um
ponto final na situação ao reduzir o imposto de 119% para 12.5%. De um dia para
o outro, o chá tornou-se acessível e o contrabando deixou de ser um negócio
lucrativo.
Aqui
no Brasil o chá é produzido em várias regiões, entre elas São Miguel (Açores)
onde os produtores criaram uma associação para certificar o seu chá produzido
de forma orgânica; hoje, a produção de chá no mundo é calculada por volta de
2,34 bilhões de kg por ano. A Índia, um país pobre, e repleto de contradições
econômicas é o numero 1 na produção como a maior nação produtora de chá do
mundo, com uma produção anual de aproximadamente 850 milhões kg. A China, onde o chá originou-se, hoje
sustenta a segunda posição e contribui com 22% da produção mundial de chá.
Outros paises são importantes produtores de chá como a Argentina, Sri Lanka,
Turquia, Geórgia, Kenya, Indonésia e Japão. A produção, o tranporte, e a
distribuição do chá demandam transações entre pessoas a milhares de quilômetros
de distância do seu consumidor, estudar estas transações também é tarefa da
sociologia.
Atualmente,
o chá
continua a ser consumido por diversos povos espalhados pelo mundo, sendo ainda
mais popular do que o café. Ao bebermos chá nos envolvemos em todo um processo
passado de desenvolvimento social e econômico, por exemplo, a Stassen
Natural Food é um dos principais produtores e exportadores de chá de
qualidade do Sri Lanka e um antigo parceiro do Comércio Justo[3]. O
Sri Lanka é um importante exportador de chá no mundo, a economia do país
depende fortemente da produção de chá, o governo é detentor da maioria das
fábricas de processamento de chá, e o chá é vendido em leilões controlados pelo
Estado.
Logo,
os pequenos produtores de chá são excluídos da produção e comercialização, e
isso torna difícil para as organizações de Comércio Justo introduzir o Comércio
Justo de fato como uma alternativa à produção e exportação de chá neste
país, entretanto esta empresa mostrou um
particular interesse no Comércio Justo e possuí aparentemente objetivos
partilhados, como a melhoria das condições de trabalho e de vida das pessoas
que trabalham nas plantações de chá, e a promoção da agricultura biológica[4].
Podemos escolher entre acreditar ou não
neste “comprometimento”.Também podemos escolher entre tomarmos chá proveniente
de produtores que objetivam o comércio justo e não fazem uso de fertilizantes,
pesticidas e que respeitam os ciclos de vida naturais, ou dos que exploram mão
de obra, utilizam fertilizantes comprometendo nossa saúde e não respeitam a
natureza, claro que a partir de pesquisas acerca dos produtores, obtendo
informações através de fontes confiáveis etc.
Politizamos assim o consumo
desta bebida, e seguramente contribuímos para um análise sociológica acerca das
questões que envolvem a produção do chá; após todas estas informações, mesmo
que ainda superficiais iniciamos um processo de análise contextualizando
historicamente seu consumo e produção
para compreender uma série de questões, os sociólogos estão interessados em
compreender como a globalização aumenta a consciência das pessoas acerca de
assuntos que vêm ocorrendo em locais distantes, como por exemplo na Índia, no
Sri Lanka, encorajando-as a produzir novos conhecimentos, a ponderar, e pensar
criticamente.
[2] As Treze Colônias foram as
colônias Norte-Americanas que se rebelaram
contra o domínio britânico, em 1775, quando formaram
um governo provisório, Norte-Americano, o qual proclamou a sua
independência no dia 4 de julho de 1776. Subsequentemente,
as colônias constituíram-se nos treze primeiros Estados americanos. As demais colônias dabritânicas na América do Norte não aderiram imediatamente
ao movimento de independência. As colônias foram fundadas entre 1607 (Virgínia) e 1733 (Georgia).
[3] O comércio justo é um dos
pilares da sustentabilidade econômica e ecológica.Trata-se
de um movimento social e uma modalidade de comércio internacional que busca o
estabelecimento de preços justos, bem como de padrões sociais e ambientais
equilibrados, nas cadeias produtivas.A idéia de um comércio justo
surgiu nos anos
1960 e ganhou corpo em 1967, quando foi criada, na Holanda, a Fair Trade Organisatie. Dois anos
depois, foi inaugurada a primeira loja de comércio justo. O café foi o
primeiro produto a seguir o padrão de certificação desse tipo de comércio, em 1988. O comércio justo
é definido pela News! (a rede
européia de lojas de comércio justo) como "uma parceria entre produtores e
consumidores que trabalham para ultrapassar as dificuldades enfrentadas pelos
primeiros, para aumentar seu acesso ao mercado e para promover o processo de
desenvolvimento sustentável. O comércio
justo procura criar os meios e oportunidades para melhorar as condições
de vida e de trabalho dos produtores, especialmente os pequenos produtores
desfavorecidos. Sua missão é promover a eqüidade social, a proteção do ambiente
e a segurança econômica através do comércio e da promoção de campanhas de
conscientização".
[4] Agricultura
orgânica ou agricultura biológica é o termo
frequentemente usado para designar a produção de alimentos e
outros produtos vegetais que não faz uso de produtos químicos sintéticos, tais
como fertilizantes e pesticidas,
nem de organismos
geneticamente modificados, e geralmente adere aos princípios de agricultura sustentável.
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