segunda-feira, 30 de março de 2020

O poço: O abismo social em metáfora da sociedade capitalista


Obs.: Mesmo que contenha spoilers ainda assim é preciso ver, o filme não está minuciosamente detalhado, apenas são opiniões e reflexões acerca desta obra cinematográfica primorosa.

“O poço” é um filme produzido pela Netflix lançado nessa última sexta-feira 20 de março. Um filme mais do que oportuno para assistirmos neste momento em que uma pandemia assola o mundo, e que nos leva a refletir sobre nossas ações, rever nossos conceitos e questionar nossos valores e os dos outros e principalmente repensar nosso sistema econômico e modo de vida.

O filme começa pelo que parece ser uma cozinha de restaurante, um homem que deve ser o responsável pela qualidade e limpeza das refeições/pratos passa avaliando os pratos e vistoriando funcionários, exigindo que tudo esteja perfeito. Logo em seguida, nosso herói, Goreng, nos é apresentado, aparecendo em seu nível/ cela/ andar e conhecendo aquele que lhe acompanhará até o fim em sua estadia no poço, Trimagasi.

Um longa-metragem visceral que desperta inúmeros sentimentos, fomenta diversas críticas e interpretações, ao meu ver uma verdadeira metáfora da sociedade capitalista, evidenciando o abismo social e os verdadeiros giros a que estamos sujeitos neste sistema, “Há três tipos de pessoas. As de cima. As de baixo. E as que caem.” é assim que a ideologia capitalista funciona, incitando o individualismo, a competição.

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Em minha concepção, o poço não pode ser considerado uma prisão, da forma como entendemos, uma vez que alguns estão ali voluntariamente, como o protagonista que desejava parar de fumar, então seria uma espécie de confinamento voluntário, outros cumprem algum tipo de pena alternativa, aqueles que cometeram determinados tipos de crimes, como é o caso de Trimagasi. O poço é, de fato, um experimento.

Logo no início do filme, Trimagasi apresentaao seu companheiro de nível Goreng, o elucida que ficarão juntos ali pro um mês e fala sobre a divisão em níveis, acreditando que o último seria o nível, pois já teria estado no nível 132, e fala que tiveram sorte em estar no nível 48, pois este seria um nível intermediário, 

O filme nos leva refletir sobre poder, violência, desigualdade, escrúpulo, sobrevivência, dor, é cada um por si, quem está em cima usufrui dos seus privilégios, quem está embaixo faz escolhas ligadas à sua sobrevivência, vemos um banquete extraordinário sendo preparado e servido a partir do nível 1, os demais níveis comem o que sobra do nível anterior, consequentemente, a partir do 100 não há mais nenhum resto de alimento, e é nesta dinâmica do poço que são expressas as mais variadas facetas do ser humano, a ausência de caráter, escrúpulo, consideração, consciência coletiva, coesão etc.

 O filme nos leva a pensar como nos comportamos em situações extremas, até onde vai nosso bom senso, ética, compaixão, nos faz refletir sobre coletividade, coesão, coalizão, especialmente neste momento específico, em que estamos diante de pessoas que exprimem sem pudores seu egoísmo e individualismo...

A personagem mais expressiva do poço não é Goreng, ainda que ele seja o protagonista. Trimagassi que lhe apresenta as regras, e lhe mostra na prática a eficiência do uso da violência naquele contexto. Os “moradores” do local são divididos em andares ou níveis, onde ficam por 1 mês até trocarem de andar compulsoriamente sem serem apresentados os critérios para tal mudança.  Ficam dúvidas, quantos andares existem de fato? Que critérios são ou justificativas servem para troca de nível ou andar?  O que movimenta a plataforma que leva o alimento aos andares se não aparecem cabos ou suportes para sustentá-la? Se o poço é um experimento e ao concluir receberiam um certificado, qual seria este certificado? Qual habilitação ou capacitação ele daria?
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O que vamos comer?”, e logo responde “O que sobrar do nível acima, óbvio”. Responde Trimagasi a Goreng. A vida imita a arte ou a arte se inspira na vida? Aqueles que estão nos níveis acima, mesmo sabendo que há outros em baixo, não hesitam em comer mais do que o necessário e até mesmo em macular os alimentos, pisando, sujando, cuspindo, urinando, não se importam, mesmo sabendo que no próximo mês poderão estar em um nível mais baixo, onde não terão nada, a não ser dejetos, pratos e baixelas vazias... Esse comportamento pode ser associado à pequena burguesia, os que sonham ser ricos, tornam-se emergentes, que a qualquer momento podem voltar a ser pobres ou neste caso cair, mas o poder, o privilégio e o controle estão de fato nas mãos daqueles que criaram o experimento, os que estão forma do alcance do abismo social, fora do poço...

Evidentemente os andares superiores comem mais e melhor, temos uma representação brilhante da vida em sociedade, mas crua e nítida, sem hipocrisias, sem maquiagem, nos expõem ao que nós somos ou podemos ser em situações extremas, em que estamos ameaçados, situações em que nossa sobrevivência está em risco, como nos disse Ortega Y Gasset eu sou eu e minhas circunstâncias...
           
Outras questões marcantes no filme é a crítica contundente à sociedade de consumo através da publicidade da faca que fica mais afiada na medida em que é utilizada e da fixação de Trimagasi em adquiri-las, o discurso de que um símbolo da resistência é necessário e o ensinamento de que a violência só é permitida pela revolução quando o diálogo já não adianta mais.

A mudança mensal de andar/ nível evidencia que todos os confinados têm a consciência de que um dia podem acordar em andares acima ou abaixo, Goreng mostra de  maneira enfática que não existe solidariedade espotânea e Trimagasi (o consumista descontrolado comparador de facas)  mostra a goreng que aproveita todas as oportunidades nas quais possa ser opressor, deixando para nós uma reflexão criando uma ponte entre Paulo Freire e Hegel para explicar essa dinâmica “...O sonho do oprimido é se tornar opressor”.

“Você é comunista? Os de cima não escutam comunistas” perguntou Trimagasi para Goreng. No momento em que vivemos e nas outras crises do sistema capitalista as contradições ficam ainda mais claras, milhões de trabalhadores perdem os seus direitos, a classe trabalhadora se arrisca na pandemia para garantir o luxo da burguesia...

A sanidade de Goreng é testada e seus instintos mais primitivos são despertados, assim como os dos outros ocupantes/ condenados/ moradores do poço. A cada andar mais uma revelação chocante, é matar ou morrer, antes ele do que eu, mas como Dom Quixote, Goreng é um sonhador, será? Todo revolucionário é um sonhador?

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Goreng é o único personagem que leva um livro para o poço, para deixar claro o poder da educação e da leitura, pois é a personagem de Goreng, o instruído, que inicia a revolução no poço, o único que diante da lógica do aprisionamento se atreve a tentar transformar o sistema. O que me deixou em êxtase foi a obra escolhida para Goreng levar para o poço, Dom Quixote, de início pensei que seria por ele ser um sonhador, acreditando ser possível a revolução, mas a escolha da obra de Cervantes não foi aleatória, Miguel de Cervantes está para a língua espanhola como Machado de Assis está para a língua portuguesa, e ambos questionam as questões de classe da sua época. Um livro é inútil no poço, mas foi a educação e o letramento que conduziram Goreng à sua revolução, fica bem clara a oposição educação x violência , a faca e o livro, Goreng e Trimagasi, “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”
 A revolução de Goreng tem como símbolo a Panacota, que além de assumir esse status de semióforo da revolução do poço, também acho que o livro de Cervantes  tem esse papel simbólico, ainda é o único alimento disponível para ofertar à criança no último nível, que seria o 333, que além de ser carregado de simbologia religiosa também representa o princípio da expansão e do crescimento. Para Goreng o poço acaba por ser uma chance de tentar mudar um sistema de dentro e mostrar que ainda há esperanças.
Outro destaque no roteiro, no texto, na trama, o poço despersonifica o controle do confinamento, ou seja, não existe uma pessoa, um idealizador, um líder, um criador do poço, a administração não é ninguém...

O filme é inquietante, intrigante, e tem um desfecho ambíguo, porque não fica claro o que aconteceu com Goreng após enviar a filha de Miharu para cima, observamos que quando nosso herói revolucionário tenta obter a colaboração dos outros e ele fracassa e precisa fazer uso da força e da violência, alguns acreditam que o nível/andar/cela 333 não existe e Goreng morreu, por isso reencontra Trimagasi, que mesmo depois de morto continua tendo diálogos com ele e lhe dando conselhos, além disso não existiriam crianças no poço, inclusive os próprios produtores e roteiristas destacam isso, há quem diga ainda que a menina teria nascido no poço, e que Miharu teria ficado todo esse tempo no poço.

No fim os dois saem andando e deixam a menina como mensagem na plataforma que move-se misteriosamente durante todo o filme, uns defendem a tese que Goreng morreu enquanto tentava salvar a menina, e o encontro com Trimagasi seria sua chegada no mundo espiritual, outra interpretação é a de que Goreng está delirante, seu encontro com seu companheiro de nível Trimagasi seria alucinação, e após resgatar a menina ficaria no último nível por um mês conforme é determinado pelo controle do poço...

O filme seria uma metáfora do sistema capitalista, evidenciando os perigos da mobilidade social em uma sociedade de classes onde como nos disse Hobbes “o homem é o lobo do homem.”



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