Obs.: Mesmo que contenha
spoilers ainda assim é preciso ver, o filme não está minuciosamente detalhado, apenas são opiniões e reflexões acerca desta obra cinematográfica primorosa.
“O poço” é um filme produzido
pela Netflix lançado nessa última sexta-feira 20 de março. Um filme mais
do que oportuno para assistirmos neste momento em que uma pandemia assola o
mundo, e que nos leva a refletir sobre nossas ações, rever nossos conceitos e
questionar nossos valores e os dos outros e principalmente repensar nosso
sistema econômico e modo de vida.
O filme começa pelo que
parece ser uma cozinha de restaurante, um homem que deve ser o responsável pela
qualidade e limpeza das refeições/pratos passa avaliando os pratos e
vistoriando funcionários, exigindo que tudo esteja perfeito. Logo em seguida,
nosso herói, Goreng, nos é apresentado, aparecendo em seu nível/ cela/ andar e
conhecendo aquele que lhe acompanhará até o fim em sua estadia no poço,
Trimagasi.
Um
longa-metragem visceral que desperta inúmeros sentimentos, fomenta diversas
críticas e interpretações, ao meu ver uma verdadeira metáfora da sociedade
capitalista, evidenciando o abismo social e os verdadeiros giros a que estamos
sujeitos neste sistema, “Há três tipos de pessoas. As de cima.
As de baixo. E as que caem.” é assim que a ideologia
capitalista funciona, incitando o individualismo, a competição.

Em minha concepção, o poço não pode ser considerado
uma prisão, da forma como entendemos, uma vez que alguns estão ali
voluntariamente, como o protagonista que desejava parar de fumar, então seria
uma espécie de confinamento voluntário, outros cumprem algum tipo de pena
alternativa, aqueles que cometeram determinados tipos de crimes, como é o caso
de Trimagasi. O poço é, de fato, um experimento.
Logo no início do filme, Trimagasi “apresenta”
ao seu companheiro de nível Goreng, o elucida que ficarão juntos ali pro um
mês e fala sobre a divisão em níveis, acreditando que o último seria o nível,
pois já teria estado no nível 132, e fala que tiveram sorte em estar no nível
48, pois este seria um nível intermediário,
O
filme nos leva refletir sobre poder, violência, desigualdade, escrúpulo, sobrevivência,
dor, é cada um por si, quem está em cima usufrui dos seus privilégios, quem
está embaixo faz escolhas ligadas à sua sobrevivência, vemos um banquete extraordinário
sendo preparado e servido a partir do nível 1, os demais níveis comem o que
sobra do nível anterior, consequentemente, a partir do 100 não há mais nenhum
resto de alimento, e é nesta dinâmica do poço que são expressas as mais
variadas facetas do ser humano, a ausência de caráter, escrúpulo, consideração,
consciência coletiva, coesão etc.
O filme nos leva a pensar como nos comportamos
em situações extremas, até onde vai nosso bom senso, ética, compaixão, nos faz
refletir sobre coletividade, coesão, coalizão, especialmente neste momento
específico, em que estamos diante de pessoas que exprimem sem pudores seu
egoísmo e individualismo...
A
personagem mais expressiva do poço não é Goreng, ainda que ele seja o
protagonista. Trimagassi que lhe apresenta as regras, e lhe mostra na
prática a eficiência do uso da violência naquele contexto. Os “moradores” do
local são divididos em andares ou níveis, onde ficam por 1 mês até trocarem de
andar compulsoriamente sem serem apresentados os critérios para tal mudança. Ficam dúvidas, quantos andares existem de
fato? Que critérios são ou justificativas servem para troca de nível ou
andar? O que movimenta a plataforma que
leva o alimento aos andares se não aparecem cabos ou suportes para sustentá-la?
Se o poço é um experimento e ao concluir receberiam um certificado, qual seria
este certificado? Qual habilitação ou capacitação ele daria?
O
que vamos comer?”, e
logo responde “O que sobrar do nível acima, óbvio”. Responde Trimagasi a Goreng. A vida imita a
arte ou a arte se inspira na vida? Aqueles que estão nos níveis acima, mesmo
sabendo que há outros em baixo, não hesitam em comer mais do que o necessário e
até mesmo em macular os alimentos, pisando, sujando, cuspindo, urinando, não se
importam, mesmo sabendo que no próximo mês poderão estar em um nível mais
baixo, onde não terão nada, a não ser dejetos, pratos e baixelas vazias... Esse
comportamento pode ser associado à pequena burguesia, os que sonham ser ricos,
tornam-se emergentes, que a qualquer momento podem voltar a ser pobres ou neste
caso cair, mas o poder, o privilégio e o controle estão de fato nas
mãos daqueles que criaram o experimento, os que estão forma do alcance do
abismo social, fora do poço...
Evidentemente
os andares superiores comem mais e melhor, temos uma representação brilhante da
vida em sociedade, mas crua e nítida, sem hipocrisias, sem maquiagem, nos
expõem ao que nós somos ou podemos ser em situações extremas, em que estamos
ameaçados, situações em que nossa sobrevivência está em risco, como nos disse
Ortega Y Gasset “eu sou eu e minhas circunstâncias... ”
Outras
questões marcantes no filme é a crítica contundente à sociedade de consumo
através da publicidade da faca que fica mais afiada na medida em que é
utilizada e da fixação de Trimagasi em adquiri-las, o discurso de que um
símbolo da resistência é necessário e o ensinamento de que a violência só é
permitida pela revolução quando o diálogo já não adianta mais.
A
mudança mensal de andar/ nível evidencia que todos os confinados têm a
consciência de que um dia podem acordar em andares acima ou abaixo, Goreng
mostra de maneira enfática que não
existe solidariedade espotânea e Trimagasi (o consumista descontrolado
comparador de facas) mostra a goreng que
aproveita todas as oportunidades nas quais possa ser opressor, deixando para
nós uma reflexão criando uma ponte entre Paulo Freire e Hegel para explicar
essa dinâmica “...O sonho do oprimido é se tornar opressor”.
“Você
é comunista? Os de cima não escutam comunistas” perguntou Trimagasi para Goreng. No
momento em que vivemos e nas outras crises do sistema capitalista as
contradições ficam ainda mais claras, milhões de trabalhadores perdem os seus
direitos, a classe trabalhadora se arrisca na pandemia para garantir o luxo da
burguesia...
A
sanidade de Goreng é testada e seus instintos mais primitivos são despertados,
assim como os dos outros ocupantes/ condenados/ moradores do poço. A cada andar
mais uma revelação chocante, é matar ou morrer, antes ele do que eu, mas como
Dom Quixote, Goreng é um sonhador, será? Todo revolucionário é um sonhador?

Goreng
é o único personagem que leva um livro para o poço, para deixar claro o poder
da educação e da leitura, pois é a personagem de Goreng, o instruído, que
inicia a revolução no poço, o único que diante da lógica do aprisionamento se
atreve a tentar transformar o sistema. O que me deixou em êxtase foi a obra
escolhida para Goreng levar para o poço, Dom Quixote, de início pensei que
seria por ele ser um sonhador, acreditando ser possível a revolução, mas a escolha
da obra de Cervantes não foi aleatória, Miguel de Cervantes está para a língua
espanhola como Machado de Assis está para a língua portuguesa, e ambos
questionam as questões de classe da sua época. Um livro é inútil no poço, mas
foi a educação e o letramento que conduziram Goreng à sua revolução, fica bem
clara a oposição educação x violência , a faca e o livro, Goreng e Trimagasi,
“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade
muda.”
A revolução de Goreng tem como símbolo a
Panacota, que além de assumir esse status de semióforo da revolução do poço,
também acho que o livro de Cervantes tem
esse papel simbólico, ainda é o único alimento disponível para ofertar à
criança no último nível, que seria o 333, que além de ser carregado de
simbologia religiosa também representa o princípio da expansão e do
crescimento. Para Goreng o poço acaba por ser uma chance de tentar mudar um
sistema de dentro e mostrar que ainda há esperanças.
Outro
destaque no roteiro, no texto, na trama, o poço despersonifica o controle do
confinamento, ou seja, não existe uma pessoa, um idealizador, um líder, um
criador do poço, a administração não é ninguém...
O
filme é inquietante, intrigante, e tem um desfecho ambíguo, porque não fica
claro o que aconteceu com Goreng após enviar a filha de Miharu para cima,
observamos que quando nosso herói revolucionário tenta obter a colaboração dos
outros e ele fracassa e precisa fazer uso da força e da violência, alguns
acreditam que o nível/andar/cela 333 não existe e Goreng morreu, por isso
reencontra Trimagasi, que mesmo depois de morto continua tendo diálogos com ele
e lhe dando conselhos, além disso não existiriam crianças no poço, inclusive os
próprios produtores e roteiristas destacam isso, há quem diga ainda que a
menina teria nascido no poço, e que Miharu teria ficado todo esse tempo no
poço.
No
fim os dois saem andando e deixam a menina como mensagem na plataforma que
move-se misteriosamente durante todo o filme, uns defendem a tese que Goreng
morreu enquanto tentava salvar a menina, e o encontro com Trimagasi seria sua
chegada no mundo espiritual, outra interpretação é a de que Goreng está
delirante, seu encontro com seu companheiro de nível Trimagasi seria
alucinação, e após resgatar a menina ficaria no último nível por um mês
conforme é determinado pelo controle do poço...
O
filme seria uma metáfora do sistema capitalista, evidenciando os perigos da
mobilidade social em uma sociedade de classes onde como nos disse Hobbes “o
homem é o lobo do homem.”


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